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Qua, 06/05/2009 - 13:30


É possível observar que a clínica da infância é caracterizada, hoje em dia, por um excesso de saber. Inúmeras pesquisas vêm sendo realizadas com o objetivo de nomear aquilo que causa sofrimento à criança. Um exemplo paradigmático é o TDAH ( Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade). Este termo diagnóstico circula em diversas fontes: na internet, em revistas, na televisão.

Algumas pesquisas fornecem dados significativos. Segundo Rose1, houve um aumento na prescrição de Ritalina ( medicamento amplamente usado para o tratamento de TDAH) de 600% nos Estados Unidos. O Brasil é um dos paises que mais prescreve anfetaminas para as crianças.

Esses dados são observados cotidianamente na clínica. As crianças, diagnosticadas pelos próprios pais ou por professores chegam ao consultório dizendo que possuem o transtorno.

Uma outra mudança efetiva na clínica se refere ao que se espera de um tratamento. Se antigamente as pessoas procuravam um psicanalista para saber o que lhes ocorria, o que causava o sofrimento, hoje em dia esse saber já vem pronto, construído e fortemente arraigado. É interessante notar o quanto os pais e, muitas vezes, a própria criança não dialetizam esta questão, trazem esse diagnóstico como uma verdade, que não precisa ser questionada.

A questão diagnóstica é central para a medicina e também para a psicanálise. A medicina baseada em evidências é um exemplo da maneira pela qual se faz diagnósticos na nossa atualidade. A partir daquilo que se vê ( das evidências observadas em imagens neurológicas e/ou ortopédicas) constata-se aquilo que falha para que então se possa tratar.

Porém, no que se refere a subjetividade, nada pode ser visto. Pode-se sim ser escutado, nas tramas e enredos da linguagem própria a cada sujeito. Linguagem aqui entendida não como mero código da comunicação, mas sim de uma linguagem que revela a particularidade de cada sujeito. O diagnóstico, do ponto de vista da psicanálise, considera essa linguagem, aquela que é particular a cada um, que carrega no dizer os caminhos desejantes do sujeito. O diagnóstico é um horizonte para o psicanalista para que a direção do tratamento seja criada. Assim, o objetivo é menos o de fornecer um nome ou um alívio a quem nos procura.

Diante da angústia, do sofrimento, procuramos dar sentido ao que nos ocorre. É um movimento do humano. E na atualidade encontramos rapidamente nomes que nos identificam. Curioso notar que as pessoas não questionam aquilo que encontram. Assim vê-se pessoas muito conformadas com aquilo que encontram na internet, rádio, eteceteras, revelando um excesso de saber acerca daquilo que as faz sofrer. Se não há duvida, falta, não há nada que mova para a mudança.

Um diagnóstico só pode ser feito por um profissional habilitado. A informação adquirida nos meios de comunicação não garante um diagnóstico. É assim que José, de onze anos, medicado como hiperativo e alvo de inúmeras queixas dos pais e professores me diz: eu fico o dia todo trancado no meu apartamento e na escola, o brincar é confundido com agitação. Eu tenho que tomar remédio pra isso???

Não se trata de questionar a utilidade das informações que circulam hoje em dia nos meios de comunicação. Trata-se de questionar que efeitos esse excesso produz na subjetividade humana. E um deles, parece se referir a ausência de questionamento diante do que é veiculado.

Viva o José, que pode fazer essa questão junto com alguém habilitado para escutá-lo.


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