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Qua, 06/08/2008 - 17:55


É diante do espelho que os jovens se assustam com as mudanças ocorridas. Com a irrupção dos processos pubertários, os jovens se encontram diante da tarefa psíquica de se apropriar desta mudança. A sensação é de estranhamento e familiaridade. Curioso que em algumas línguas como o Alemão a raiz desta palavra é a mesma para estranho e familiar. O corpo faz este enigma: ao mesmo tempo em que nós o reconhecemos profundamente, que temos uma profunda sensação de intimidade somos frequentemente tomados por uma sensação de não reconhecimento, de estranhamento.

Porém, o psiquismo trabalha constantemente e muito desta sensação de estranhamento vem da tentativa de dar um tratamento simbólico ao que vem do nosso corpo.

Do lado dos pais outras mudanças ocorrem. É também diante do espelho que os pais percebem que a potência e a jovialidade esta mais do lado dos filhos do que com eles. O tônus muscular se altera dando lugar à flacidez, os cabelos brancos invadem o corpo, os médicos solicitam exames e mais exames de rotina. Evidencia-se a passagem do tempo. E ver o corpo envelhecer é ficar diante da finitude da vida. A instabilidade da imagem do corpo supõe então uma fragilização dos processos de simbolização. É numa saída defensiva diante desta fragilização que os pais rivalizam com seus filhos. Resolvem então comprar uma grande moto e passear pelas ruas, fazem uma tatuagem no braço e voltam a falar gírias. E os filhos adolescentes dizem: Xi, ta doidão!!!

Do ponto de vista do mercado existem inúmeras ofertas de cirurgia e de cosméticos criados com o objetivo de driblar a passagem do tempo. Há muito esforço mercadológico para nos fazer evidenciar que o ideal de nossa atualidade é a jovialidade e a potência e há uma oferta de produtos e objetos que revelam que é possível adquirir esta jovialidade mesmo que a marca do tempo tenha inscrito sua passagem.

É necessário se sentir feliz e saudável. Mas há que se levar em conta que há um imperativo social de jovialidade como se a maturidade não fosse sensual e cativante.

Se há uma marca legítima que nos fornece uma sensação de pertencimento à sociedade é a diferença entre as gerações. Os pais são diferentes dos filhos, que são diferentes dos avós por que assim se faz uma passagem. Esta passagem de uma geração à outra se faz ver pela passagem do tempo, o que confere lugares simbólicos específicos para cada membro de uma família. E há uma tentativa desnorteadora de burlar esta diferença, como se o bom fosse o igual, todos jovens e potentes. Há muita força e potência na diferença. Para que serve esta necessidade constante em negar a passagem do tempo?


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