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Qui, 21/02/2008 - 12:42


Tia me dá um trocado? Pode ser dez centavos...

Foi dirigindo ao trabalho que escutei essa frase que já é tão familiar a todos nós. Quem me dirigiu esse pedido foi um menino, de aproximadamente 12 ou 13 anos. Com o sinal fechado posso observar, com algum consentimento estranho, que todos os meninos que ficam neste farol se revezam entre as fileiras dos carros parados. Penso então: eles têm regras e leis de convivência. Mas o que soava em meus ouvidos já não era mais este pedido de dez centavos, era o Tia. Como uma nota desafinada numa música calma e tranqüila. Como tia? Que pedido de familiaridade me era endereçado nesse Tia?

É muito freqüente associarmos os jovens que moram nas ruas a um abandono familiar. Há um consenso que haja, em nossa sociedade, uma grande vulnerabilidade sócio-econômica sendo a rua o lugar de sobrevivência para muitos. Na bala pendurada no retrovisor lemos: “Não sou bandido, vender balas foi à maneira que encontrei para ganhar dinheiro para sustentar minha família’”.

A rua não é somente um espaço de circulação, na rua se trabalha, na rua se formam famílias, nas ruas se encontram as TIAS, a rua é uma grande casa de sobrevivência. E é no entorno de nossos lares fechados que assistimos a uma oferta incessante de objetos que podem ser adquiridos e consumidos imediatamente, tênis de marca, roupas, o que quisermos, mensagem esta que revela que a vida pode ser vivida sem faltas, com tudo a mão.

Na adolescência, aquilo que foi adquirido pela criança é revisto e elaborado. Há um luto do corpo e das relações da infância e uma demanda do social para que o jovem se posicione com relação a sua sexualidade e suas escolhas profissionais. Por isso as constantes reivindicações dos adolescentes quanto á eficácia daquilo que lhe foi transmitido ao longo da vida infantil. Há também o chamado do social que traz a seguinte pergunta: Você é homem? Você é mulher? Como você vai trabalhar? Do ponto de vista da família, principalmente do casal parental há também um forte abalo. Será que ele vai ser mesmo aquilo que pensamos? Friso então a intensa vulnerabilidade deste período da vida que é muito suscetível á conflitos.

Se por um lado a rua oferece encantos como liberdade, anonimato, ausência de limites, é na mesma rua que escutamos um pedido de familiaridade, de garantias.

Foi então olhando novamente para o meu suposto “sobrinho” que pensei que a aposta para a adolescência é muito angustiante, pois ela é sem garantias. Muitas vezes, o que garante são os objetos aos quais pode-se ter acesso como os tênis de marca, os bonés e as roupas. E como tia, vi um sobrinho livre, na rua, mas sofrendo.


*É proibida a reprodução do texto publicado nesta página, no todo ou em parte, sem autorização escrita da autora, sujeito às penalidades previstas na Lei 9.610/98 de direitos autorais.

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