Essa frase, presente em inúmeros discursos, principalmente, no religioso revela algo de ideal e, ao mesmo tempo, de impossível. E faz pensar: Qual é a base do amor? Que condições são necessárias para que se ame (e amar) ao próximo? E mais, é preciso amar o outro como a si mesmo?

Estas perguntas remetem diretamente às questões das relações com os outros, do laço social. Sabe-se que o fundamento de todo amor é narcísico. Para se ter a capacidade de amar é preciso ter sido amado por outros nos momentos primordiais da constituição como sujeitos. É necessário o registro de ter sido amado para que se exista e, assim, se estabelecer um laço de amor com alguém.

O amor próprio provém do amor do Outro. O amor exige o reconhecimento de um Outro, cuja semelhança possibilite uma identificação. Nesse processo de aproximação ao semelhante provoca-se uma divisão, em que o diferente é separado, retirado, excluído. Então, quem é este próximo que se deve amar?

Para que viva inserido na sociedade, o sujeito, primeiramente, precisa viver em grupo.. É a única maneira de se proteger das catástrofes naturais, de conseguir trabalhar e se relacionar. O preço que se paga para isso é o de excluir a agressividade que é o traço fundamental de todo o ser humano. O convívio exige esta manobra, mas a agressividade não é facilmente excluída, ela acaba encontrando vias de expressão.

A adolescência é um momento bastante revelador deste impasse entre o social e individual, entre as diferenças e a generalização. Observamos este fenômeno quando escutamos a radicalidade do discurso dos adolescentes quando estes falam daqueles que não pertencem ao seu grupo e do amor exacerbado aos que pertencem.

Bem, se por um lado, é necessário ao humano viver em grupo e abolir, numa certa medida, as diferenças e a agressividade, algo de excedente se passa em nossa atualidade quando se nota uma tendência universalizante em vários discursos que circulam no nosso laço social.

Por exemplo, no discurso da medicina atual, esta questão se torna evidente, pois sua proposta é a de classificar todas as doenças, e incluir os sujeitos nestas classificações. Aquilo que foge à classificação é rechaçado, não reconhecido. E assim criam-se novas classificações. No discurso capitalista, há o predomínio universalizante do consumismo que coloca novamente esta questão: possuir os mesmos bens que os outros ou se está fora, excluído.

Fica aqui a questão. Como amar o Outro na sua singularidade, na sua diferença que é constitutiva, seu traço? Como suportar a diferença na nossa atualidade quando ela deve ser rechaçada, eliminada a medida em que se ama como a si mesmo? O que fazer quando se dirige alguém sem considerar sua particularidade?


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