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A edição de Abril da Revista Veja (2009) tem como título “Eles que mandam”. Na foto da capa, um adolescente segura nas mãos seus pais, apequenados diante da força do jovem rapaz. A matéria se centra na relação dos jovens com a internet, celulares, orkut e no custo de manter financeiramente os jovens de classe média alta e classe alta. Ressalta também que o fato dos adolescentes estarem constantemente conectados os lança numa grande quantidade de informações sem se aprofundar em nenhuma delas.
A propaganda de um dos canais mais assistidos pelo público infantil (dos cinco aos dez anos), o Cartoon Network é a seguinte: “A gente faz o que quer”. “Eles que mandam” e “A gente faz o que quer”: frases reveladoras de uma inversão tão freqüente em nossos tempos.
Em 1929 num texto célebre e atual Freud reflete sobre o “Mal Estar na Civilização”, colocando em evidência a renúncia a qual somos submetidos para viver na sociedade. De modo geral, para o autor, a vida em comunidade nos oferece prazer na medida em que nos protege da força da natureza, da fragilidade de nossos corpos e do mal estar surgido nas relações com os outros homens. O “preço” que se paga para que isso ocorra é o da renúncia do prazer irrestrito e da agressividade do homem como condição inexorável para a cultura.
Em vários momentos de sua obra, quando se refere à puberdade, coloca que uma das principais tarefas do jovem é de se desligar da autoridade dos pais, buscando outros objetos de amor num território que se situa para além do espaço familiar. O abandono a que se refere é um abandono parcial já que para ele a busca de outros objetos se refere sempre a um reencontro com os objetos iniciais de amor. E é um desligamento que não implica numa ausência de cuidado, mas sim a capacidade de oferecer aos filhos um espaço intermediário entre as trocas familiares e as experiências as quais os filhos se submetem nessa busca de um lugar no espaço público, função esta de extrema importância. Se eles que mandam, há necessidade deste ensaio, deste passeio entre o público e o privado? Se é possível fazer o que quer, para que sair e se aventurar no mundo? Não me parece à toa que seja muito comum os adultos morando ainda com seus pais.
Assistimos, com uma velocidade impressionante, a uma oferta de objetos consumíveis, sempre disponíveis, o que fornece a ilusão de que nada faltará. Quanto mais i-pod, i-phone, i-mac, melhor. Os pais, culpados pelo excesso de trabalho, (e não querendo ter muito trabalho- por que dá trabalho dizer que não) oferecem esses objetos e imprimem um texto sem palavras que autoriza o: “A gente faz o que quer”. E no imperativo: “Eles é que mandam”, escuta-se no texto (não dito) que a renúncia não é possível, que não é necessário se referir aos pais, que não há limites para se alcançar os objetos.
Quais as razões de não poder dizer aos filhos que eles não mandam e que eles não podem fazer tudo o que querem? Por que será que não é relevante transmitir que a renúncia e a falta são condições da vida?