Na vida contemporânea as pessoas passaram a viver mais em função dos avanços tecnológicos e da medicina. Essa mudança trouxe repercussões para a vida cotidiana, os indivíduos passam a se preocupar muito mais com a sua saúde, sobretudo com o avançar da idade. Inúmeras são as "receitas" e "dicas" de como alcançar a longevidade e de como envelhecer com qualidade e, diria também, de forma digna, pois, verifica-se uma busca incessante pela prevenção de doenças e preservação da capacidade funcional e da autonomia. Se por um lado evidencia-se um aumento da expectativa de vida, por outro as pessoas ficam mais suscetíveis às doenças associadas ao envelhecimento.
O envelhecimento produz marcas, muitas alterações orgânicas acontecem. Daí pensar que o envelhecer não é algo abrupto e sim um processo que faz parte da vida de todos os seres. Em outras palavras, as mudanças vão acontecendo gradualmente, o que permite que o sujeito possa se adaptar às novas condições. O esquecimento faz parte desse processo, é natural que uma pessoa com 60 não tenha a mesma performance de quando tinha 20 ou 30 anos, mas uma perda significativa da memória pode ser um sinal do surgimento de alguma doença e, portanto, merece uma avaliação cuidadosa. As queixas de memória devem ser valorizadas quando estas estão interferindo no desempenho das tarefas da vida diária.
A dificuldade de memória em idosos pode estar associada ao uso de tranqüilizantes, a quadro depressivo, a algumas doenças (como o hipotiroidismo) e a demência. Escutamos muito falar sobre este último termo, cuja utilização serve para descrever alterações de memória, em geral, a recente, e também problemas de comportamento e perda de habilidade. A demência, no discurso médico, é uma síndrome, pois agrega um conjunto de sinais e sintomas, como por exemplo, os citados acima.
Ao abordar as doenças relacionadas ao envelhecimento também é bastante comum ouvir falar sobre a doença de Alzheimer. No entanto, vale dizer que a demência e doença de Alzheimer não são sinônimos. Todas os pacientes com Alzheimer possuem demência, no entanto, o contrário não é verdade, já que a causa do quadro demencial pode ser outra, como é o caso da demência vascular, isto é, quando há uma isquemia verificada no derrame e na trombose. Pode ocorrer ainda de alguns pacientes terem os dois tipos de demência.
O diagnóstico da doença de Alzheimer, de acordo com a literatura, é feito por exclusão, ou seja, quando alguém recebe esse diagnóstico é porque se verificou prejuízos na memória e de outras funções e outras possíveis causas foram descartadas. Por não haver um exame cerebral laboratorial que comprove alterações específicas da doença, o diagnóstico é realizado por meio da avaliação clínica que, diga-se de passagem, não é imediata e demanda um acompanhamento do paciente mais prolongado. Resta ainda dizer que o diagnóstico diferencial é necessário. Não basta verificar nos pacientes idosos lentidão ou alteração no funcionamento cognitivo para fechar esse diagnóstico. Quando não é possível caracterizar um quadro demencial bem definido, considera-se o termo pseudodemência e outras possibilidades diagnósticas devem ser aventadas.
A abordagem trazida pela Psicanálise de fato enriquece a discussão uma vez que ela acredita na demência enquanto fenômeno onde muitos fatores encontram-se envolvidos e não algo completamente exterior ao sujeito. Se envelhecer é amadurecer, acumular experiências e lidar com a densidade de uma longa vida é, também, se deparar com uma certa falência do corpo que exige dos seres novos ajustes o tempo todo. Sob esse olhar, a demência passa a ser encarada como uma espécie de defesa contra os estados depressivos que muitas vezes acompanham o processo de envelhecimento.
O indivíduo acometido por uma doença irreversível e progressiva como é o caso da de Alzheimer necessita de tratamento medicamentoso, mas também de outras intervenções terapêuticas. Entendemos que o acompanhamento médico é imprescindível para o alívio dos sintomas do paciente e para minimizar os danos e a evolução da doença, mas também se faz necessário a presença de outros profissionais da área da saúde.
Certamente a intervenção com essa clientela deve ser ampla para que o tratamento não fique restrito à administração de medicamentos e que comporte, por exemplo, um trabalho dirigido aos familiares e/ou cuidadores. É muito comum observarmos que muitas vezes o paciente está estável e aquele que convive com ele “adoece”. Por ser uma tarefa árdua é importante que a pessoa que esteja nesse lugar de cuidador, além de toda orientação acerca da doença, também tenha uma escuta, pois é necessário que ela esteja emocionalmente bem para sustentar esse cuidado com o outro.
Com relação ao paciente, é importante que ele tenha atendimento psicoterápico e/ou de Terapia Ocupacional. O terapeuta ocupacional pode oferecer uma intervenção interessante, pois sabemos que uma das implicações desse diagnóstico incide sobre a funcionalidade e o desempenho nas tarefas do dia-a-dia. Alguém que possui déficit de memória e dificuldade em reter informações novas se vê diante de limites cruéis. É muito comum que a pessoa com esse tipo de prejuízo faça a mesma pergunta várias vezes seguidas ou conte uma história que já foi contada há poucos minutos atrás sem se dar conta dessa repetição. Como já dito, o paciente que vive um processo demencial possui perturbações de várias ordens que comprometem muitas funções como a linguagem, abstração, funções executivas dentre outras e que por isso podem acarretar em um empobrecimento, produzindo um estreitamento no campo de suas relações e ações cotidianas.
A gravidade do caso ou a fase da doença em que a pessoa se encontra vão orientar o trabalho terapêutico. Para cada paciente deve se investigar qual atividade indicada e essa avaliação deve acontecer sempre conectada à história pessoal. Em pacientes com demência, escolher a atividade já supõe uma intervenção, pois se acredita, sobretudo, que há um repertório e algum desejo com relação ao fazer. Validar isso não é um mero detalhe, é uma aposta na singularidade.
É preciso lembrar ainda que, qualquer processo de adoecimento exige que se reflita junto ao paciente qual o sentido da doença para ele. Esse suporte é fundamental, pois tratar é necessariamente se implicar mesmo considerando que exista limitações e comprometimentos importantes.
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