Frequentemente se escuta alguém comentando que está com enxaqueca, com dor de cabeça. A neurologia tem se ocupado desta questão e tem produzido inúmeros avanços no que diz respeito a este assunto. Encontramos também na mídia diversas propagandas de remédios para enxaqueca e temos acesso a eles em qualquer farmácia.
A incidência é bastante alta na população feminina, chegando à marca dos 20%. Na população masculina fica em torno dos 10%. A enxaqueca se caracteriza por crises repetidas de dor de cabeça que podem ocorrer com uma freqüência variável. Uma crise típica de enxaqueca é aquela que envolve metade da cabeça, está associada à náusea e vômitos e piora com a exposição à luz e sons altos.
Algumas pesquisas revelam dados no mínimo intrigantes. Existem 52 milhões de brasileiros que apresentam dores crônicas e o nosso país é o segundo maior mercado consumidor de analgésicos do mundo, só perdendo para a China, que tem uma população oito vezes maior que a nossa.
Para além daquilo que concerne a pratica específica da medicina no que diz respeito à enxaqueca e respeitando os inúmeros avanços realizados por ela, uma questão surge de imediato a partir destes dados. O que é a dor? De que dor os médicos falam?
A medicina atual toma o corpo humano como algo passível de ser observado e classificado. Há uma primazia do olhar, aonde se ordena uma anatomia patológica.
O conhecimento das doenças é a bússola do médico buscando ele sempre uma objetividade e um discurso totalizante. Desconsidera-se, portanto, a subjetividade de quem sofre: é um corpo ou um órgão que sofre, cabendo ao médico a restituição de um estado de saúde. E, de certa forma, é esta a demanda do paciente: que o médico o restitua à condição anterior, de ausência de dor.
No entanto, não podemos deixar de refletir sobre algo que parece pertinente à nossa atualidade que é a profunda intolerância a qualquer tipo de dor. Um exemplo disso é a migração que ocorre atualmente nas prescrições de psicofármacos, anteriormente realizadas por psiquiatras, para os outros ramos da medicina, ou seja, a tristeza, a depressão, a ansiedade, não cabem em nossa atualidade e cabe a qualquer clínico uma maneira de resolver esta questão.
Como ideal há o indivíduo equilibrado, centrado, controlado. A sedação dos temores humanos se torna premente e possível no discurso proposto pela medicina atual.
Para a psicanálise o corpo é atravessado pela linguagem. A criança percebe sua imagem unificada no espelho através de uma imagem fornecida por um Outro, que assim a nomeia. É a imagem creditada por um Outro que a insere numa cadeia simbólica. A entrada da criança na ordem simbólica condiz com a entrada do sujeito na linguagem.
O corpo deixa então de ser carne, só órgão, ou seja, o corpo tem história, recebe marcas afetivas. Sabe-se, por exemplo, que quando a pessoa está deprimida ela sente mais dor, assim como a depressão pode ser decorrente de quadros em que a dor é incontrolável, como nos casos de dores crônicas). Qualquer acontecimento somático, de dor, deve ser então associado ao campo da linguagem, campo específico do humano. A enxaqueca, portanto, se insere nesse mesmo contexto, devendo ser escutada não só no seu aspecto orgânico.
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