A situação de separação entre os casais é bastante freqüente e dependendo da forma como é conduzida por estes pode ser mais problemática ou não para as crianças.
No passado, muitos casais deixavam de se separar pois pensavam que isso poderia ser muito prejudicial para seus filhos. Chegavam a ficar juntos por muitos anos, mas isso era mantido às custas de constantes brigas ou um grande afastamento. Em outros casos, a idéia de se separar era colocada de lado e se adaptavam a uma vida de apenas amigos, abdicando de uma relação de casal, em prol do “bem-estar” dos filhos. É muito comum ouvirmos dos pais a expressão: “Se não fossem vocês, eu teria me separado há muitos anos...” Mas e agora? Não dá para voltar atrás, uma grande parte da vida se foi.
As crianças desde muito cedo compreendem o que está a sua volta e tiram suas próprias conclusões sobre a vida do casal. Se um casal briga muito ou se a criança percebe que a mãe por exemplo, fica muito nervosa sempre quando o pai chega do trabalho, ela mesma tem alguns pensamentos como: “meu pai poderia ir morar em outro lugar, assim minha mãe ficaria mais feliz, ia ser melhor...” Outras vezes, sem que percebam, os pais apontam aos filhos os problemas do casal: “ quando seu pai chegar cedo em casa vamos voltar a nos entender...”. Essas falas vão informando a criança sobre a situação que está sendo vivida pelo casal.
Em uma casa em que os pais vivem em estado de constante desentendimentos e agressões, a criança sente como uma ameaça para seu próprio ser. Isso ocorre pois o ser íntimo da criança é estruturado por dois entes - pai e mãe - e, quando um deles se ausenta, há uma certa confusão para ela. Diante de tais dificuldades a criança fica bastante angustiada e chega a perguntar aos pais se eles vão se divorciar.
O divórcio é uma forma de esclarecer esta situação de desentendimento vivida pelo casal. Seria então, também uma solução para os filhos. Dessa maneira, quando os pais comunicam verbalmente que vão se separar pois não funcionam mais como casal, para a criança, a dificuldade percebida fica localizada no âmbito do relacionamento do casal e não mais em suas fantasias. Por não conhecer o funcionamento do mundo infantil, os pais não percebem, mas é comum que as crianças imaginem que as brigas do casal ocorram por sua causa, “que mamãe e papai estão brigando porque eu não fui bom” e com freqüência se culpabilizam pela discórdia do casal. Quando fica esclarecido que a dificuldade não diz respeito a seus comportamentos, fica claro para a criança que ela terá que adaptar suas relações, se virar sem a presença diária de um dos pais.
Muitas vezes para evitar o conflito, a família não diz a verdade para a criança. Podem dizer coisas como: “Seu pai viajou por uns dias”. Crianças bem pequenas podem perceber que há algo errado quando este pai não retorna. E, ao não receber claramente a notícia, a criança é abalada na sua relação com os adultos, que passam a não serem mais dignos de confiança pois não lhe dizem a verdade. A criança pode então passar a ficar quieta, absorta em seus pensamentos e se desinteressar pelos amigos, como uma expressão de que há um abalo em seu ser e nas suas relações.
Quando tudo é claramente dito diante da criança e do resto da família, a criança experimenta um certo alívio, pois no lugar de um conflito familiar é nomeada uma nova configuração: uma família de pais separados.
Assim, o ideal é que os filhos sejam avisados sobre o divórcio desde o momento de sua preparação até as decisões judiciais. A criança deve ouvir palavras claras sobre as decisões tomadas pelos pais ou impostas pelo juiz. Assim, o divórcio pode ser vivenciado como uma situação tão nobre quanto o casamento. Ao contrário – o silêncio ou meias-palavras – podem comunicar à criança que estas mudanças devem ser vividas por todos com sentimentos de sofrimento e perda.
Nos casos em que o diálogo entre o casal se tornou muito difícil, pode-se contar com a ajuda de um analista, que ajudará o casal a explicitar seus conflitos e descobrir uma maneira acertada de conversar com seus filhos.
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