Essa pergunta pode causar muita surpresa se pensarmos na infância idealizada. Muitos revelam a vontade de voltar ao passado e ser criança, como se nessa fase não houvesse preocupações e somente diversões. No entanto, uma realidade diferente se esconde atrás da imagem que construirmos sobre o que é ser criança, pois, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde) cerca de 20% pode apresentar um quadro depressivo, sendo que esses dados incluem os bebês, o que difere bastante da tão sonhada infância repleta de prazeres.

Se pensarmos na proporção que isso pode ter, somos levados a nos aproximar da questão: “como andam os cuidados com o aspecto subjetivo* da crianças e de seus pais?”. O primeiro passo para ampliar nossa visão é entendendo como ela se manifesta. A depressão infantil se expressa de modo distinto do adulto, a criança com esse quadro nem sempre está triste, nem seu humor está visivelmente alterado. A depressão pode se exprimir por meio de problemas de comportamento, irritabilidade, agressividade manifesta, inibição intelectual, problemas de atenção, hipo ou hiperatividade, agitação, apatia, passividade, pesadelos.

Há crianças que morrem em decorrência da depressão, não querem tomar medicamentos, comer. Quando uma criança se arrisca demasiadamente, atravessando a rua sem medo de ser atropelada ou procura brigas, ou ofende os demais, nem sempre as pessoas que estão próximas percebem uma falta de valorização da própria vida. Existem crianças que passam a ir mal na escola, ficam silenciosas, não fazem amigos.

No caso dos bebês, eles adoecem com mais facilidade, ficam apáticos, tem muita sonolência, não querem mamar, não se interessam pelo ambiente. É bastante difícil para os pais considerarem a possibilidade de depressão. Em casos de suspeita de suicídio, como no caso de crianças que se acidentam, pulam a janela de um prédio, perguntamos como se justifica uma criança pular pelo vitrô da janela de um banheiro do prédio, um local de difícil acesso? Talvez esse episódio não seja somente acidental. É importante ressaltar que a concepção de morte da criança tem suas particularidades, mas essa é uma outra discussão.

A criança deprimida, durante os atendimentos, diz que não tem vontade de fazer as coisas ou faz demais, por não conseguir selecionar o que mais lhe dá prazer. Na escola pode deixar de prestar atenção, já que sua fantasia pode estar divagando. Interpreta as experiências sob a ótica das perdas, dizendo eu não tenho isso, aquilo ... , as pessoas não gostam de mim, sou feio, não sei fazer nada, meu desenho é feio também.

A infância admirada para esses casos parece ter sido perdida, num mundo que para ela pouco interessa. Um menino de 13 anos me disse, “você acha que alguém liga se eu morrer? Nem eu ligo, eu fico sozinho o dia inteiro”.

Esse é um diálogo que não deve ser tabu entre as crianças e os adultos, falar sobre o que angustia é um começo necessário para que haja uma possibilidade de modificação.

*Compreendido como um conjunto de sentimentos, sensações, comportamentos e aspirações, nas crianças maiores, que habita o corpo da criança. Apesar da cultura estar disponível à todos, o processo de apreensão depende da singularidade, pois é ela que dá sentido às experiências.


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