"Gravidez na adolescência"



O aumento significativo da incidência da gravidez na adolescência tornou-se um problema de saúde pública, devido às diversas repercussões deste fenômeno na vida da mãe adolescente. A gestação nesta fase, mesmo sem complicações, é chamada de gestação de risco pela própria condição que a adolescência impõe.

A adolescente vive uma fase de intensas alterações em relação ao próprio corpo, o corpo infantil é perdido e, então, o corpo passa por um processo de modificações durante alguns anos. Nas meninas os seios crescem, o quadril se alarga e é nítido seu crescimento. Com a puberdade, a adolescente começa a ter menstruações, o nível dos hormônios fica alterado e conseqüentemente, novas sensações corporais são vivenciadas e também novas fantasias são ativadas: a adolescente sonha em encontrar o amor de sua vida, seu par perfeito. Essas transformações acarretam numa intensificação da sexualidade, que passa a ser possível de ser vivida com os pares. As adolescentes passam a se relacionar com os garotos e frequentemente iniciam a vida sexual.

 Essa nova configuração traz um imenso paradoxo à adolescente que passa a ter um novo lugar social, podendo assumir responsabilidades mais complexas, mas ainda não tem o estatuto de “adulto”, sua autonomia fica em suspensão. As adolescentes reivindicam seus direitos de saírem sozinhas, dizendo que já são “grandes”, querem se arriscar mais, namorar livremente. Aliam-se a outros adolescentes, começam a participar de grupos e, desse modo, ocorre uma intensificação no estabelecimento de vínculos fora do âmbito familiar. A família passa a ser uma referência passível de ser contestada, a jovem questiona os valores parentais para se certificar que os mesmos existem. Os conflitos decorrentes do novo lugar social, do corpo e da identidade em transformação dão margem a inúmeros comportamentos impulsivos. Um desses comportamentos é a troca de parceiros e a sexualidade vivida sem cuidados. Nesse contexto muitas jovens engravidam ou contraem as doenças sexualmente transmissíveis (DSTS).

A comunidade científica tem muitas preocupações com relação à gestação durante a adolescência. Por exemplo, os médicos, em suas pesquisas, fazem inúmeras referências aos riscos tais como: a alta incidência de anemia materna, doença hipertensiva específica da gravidez, desproporção céfalo-pélvica, infecção urinária, prematuridade, placenta prévia, baixo peso ao nascer, sofrimento fetal agudo intra-parto, complicações no parto e puerpério. Outros estudos revelam aumento na reincidência de gravidez na adolescência, o que tem trazido vem preocupando os órgãos governamentais e os setores ligados à saúde, pois o SUS registrou de 1993 a 1998 um aumento de 31% nos partos em adolescentes na faixa etária de 10 a 14 anos. Isso nos leva a supor que até o final da adolescência (19anos e 11meses) outras gestações poderão ocorrer.

Em outra perspectiva, há ênfase nos efeitos negativos na qualidade de vida das jovens que engravidam, devido ao prejuízo no desenvolvimento pessoal e profissional: 53% das adolescentes completam o segundo grau, enquanto que, entre aquelas que não engravidam, esse cálculo corresponde a 95%, ou seja, há uma diferença significativa.

Além dessas visões, sobre os riscos, há uma terceira, da qual compartilho, pois trata da possibilidade de elaboração e de ressignificação da experiência. Observo na clínica, muitas jovens se implicarem no cuidado com os filhos, mesmo com dificuldades. No atendimento desses casos, pude perceber que o modo de lidar com a gravidez depende de uma variedade de fatores interligados: a relação com o companheiro, o projeto de vida, expectativas, subjetividade (estado emocional e personalidade) e família. Todos esses aspectos são passíveis de serem trabalhados.


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