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Qua, 05/11/2008 - 19:05

As histórias familiares costumam circular por todos os membros através das gerações, geralmente são contadas de pai para filho, algumas se perdem e outras permanecem mesmo com o passar dos tempos e quando seus personagens principais há muito já se foram. São as proezas de algum tio, os segredos da avó, os amores proibidos, as desilusões, as aventuras, os fracassos, os sucessos, o temperamento de alguém ou as suas manias, as frases e os ditados muitas vezes repetidos.

Todas são importantes porque nos situam em um lugar na família e na história, proporcionam um sentimento de pertencer, fazer parte de algo maior, e por essa herança somos reconhecidos (por exemplo, através do sobrenome, que remete a uma situação de imigração, de guerra, de participação na história, na literatura ou na área de ciências). De qualquer forma, elas nos ajudam a formar nossa identidade. Existem histórias em que nos identificamos e nos orgulhamos, tomamos como exemplo e histórias que não, como se ensinassem e tentamos fazer diferente.

Algumas vezes essas histórias marcam demais, rotulando e quase sufocando as pessoas da família, que sentem uma carga muito grande, como um legado para ser tão bem articulado e bem comunicativo quanto o pai, gênio no futebol, grande líder, bom político, médico competente, ou escapar de um estigma, de provar não ser desonesto, tão genioso, doente, um perdedor, obrigação de não ser bonito ou feio.

Como algumas características podem ser transmitidas geneticamente e também sofrem influência do convívio familiar, estas ficam em maior evidência, preenchendo ainda mais o imaginário familiar e do indivíduo. No caso dos vícios, como por exemplo, álcool, drogas, jogos, há o medo da fatalidade. Algumas pessoas se deixam levar como se aquele vício já fosse esperado desde cedo ou lutam e sofrem, permanecendo bem distantes para mostrar o quanto são diferentes.

As heranças, assim sendo, passam pelo imaginário das famílias, pelo que se espera do indivíduo e principalmente pelos conteúdos com os quais este se identifica. Por isso, muitas histórias se repetem, são transmitidas também inconscientemente de pai para filho ou para neto como se parte de um legado, que não é dito ou elaborado, então permanece com mais força, por não passar claramente pela consciência. Como em um caso de imigração, em que uma pessoa da família arriscou um estilo de vida diferente em outro país, mas não foi bem sucedido, fica no imaginário familiar que arriscar não é algo positivo, que o melhor é sempre o caminho mais seguro, mais estável e sem perceber os descendentes têm medo de fazer algo diferente, de mudar.

Percebemos na clínica que o que não é elaborado pelo indivíduo tende a se repetir. Observamos mães solteiras muito jovens que geram filhos que também se tornam pais muito jovens, casamentos desfeitos (“ah, na minha família, nenhum casamento dura”), negócios falidos (“tentei várias formas de ganhar dinheiro, mas como meu irmão e meu avô sempre dá errado”).

Dessa forma, as histórias familiares são importantes, pois nos situam e nos remetem às nossas origens. Contudo é essencial que consigamos reconhecer através da análise, o que é a história da família e qual é a nossa história, construir um caminho novo sem precisar repetir como se fosse algo inevitável.


*É proibida a reprodução do texto publicado nesta página, no todo ou em parte, sem autorização escrita da autora, sujeito às penalidades previstas na Lei 9.610/98 de direitos autorais.

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