Em ano de comemoração da imigração japonesa há uma grande festividade em torno deste fato histórico. Muito se fala das grandes contribuições da comunidade japonesa ao país que supostamente a acolheu.

A convivência proporcionada pela presença de minha avó em casa possibilitou-me a grande oportunidade de conhecer uma das versões da história da imigração japonesa, com detalhes de quem viveu de perto todas as nuances deste grande acontecimento.

Na década de 30, no período entre guerras, o Japão passava por uma grande crise econômica e social. Minha avó dizia que havia uma forte «propaganda» que enfatizava a possibilidade dos sonhos de progresso serem alcançados no Brasil. As pressões impostas pelas dificuldades e o estímulo destes sonhos inquietaram os japoneses daquela época. Muitos na aldeia de minha avó sonhavam em vir, corajosos eram aqueles que ousavam partir.

Esperavam que, em pouco tempo, fosse possível enriquecer com o que se produziria aqui. Como toda idealização é acompanhada de decepções, estas não tardaram em aparecer. As plantações nem sempre se localizavam em terrenos férteis, a produção não era imediata já que, anterior ao cultivo, era preciso preparar o solo. Desmatavam a floresta tropical até que as mãos não suportassem mais tanta dor.

A dor do corpo não era a única, muitas outras dores foram vividas. Os últimos grupos de imigrantes que vieram para o Brasil, dentre estes os japoneses passaram por imenso preconceito. A mão-de-obra japonesa era desvalorizada e as diferenças colocadas por suas características incitaram a discriminação, afinal, o contato com o diferente não é fácil em nenhum contexto.

Os costumes alimentares, as vestimentas e, em especial, a língua materna dificultaram a adaptação. Os sons da língua brasileira não eram facilmente assimilados por eles, cuja língua não apresentava a mínima semelhança. A comunicação ocorria precariamente, o que não facilitava as trocas entre as culturas.

Nesta história, escutei muitos relatos dos conflitos constantes entre os chamados «camaradas» (ajudantes dos proprietários das terras), não tão camaradas, que saqueavam as casas, ameaçavam com força, inclusive usavam foices e machados para intimidar aqueles que eram considerados rebeldes. O isolamento das plantações, a dificuldade de acesso e a incomunicabilidade davam ares de uma terra sem ordem, nem lei. Havia segredos sobre a violência, poucos ousavam mencioná-la devido à vergonha e à ferida ao orgulho japonês.

Ainda assim, o silêncio precisa ser quebrado, a verdade pode aparecer para que essa experiência feita de tanto sacrifício sirva de exemplo para que não se repita. Hoje vemos a importância e o prestígio que a comunidade japonesa alcançou. Mesmo que estas heranças existam, o respeito supera as dificuldades vividas.


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Matéria publicada em 09/05/2008 no site: www.jornaldapaulista.com.br