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Dom, 18/03/2007 - 22:22


Medo de escuro, de cachorro, de tomar injeção, de separar-se da mãe na entrada da escola... Mas o que é esse medo? Por que é considerado por muitas famílias como algo passageiro ou um “medo de criança” e, por outras, como um comportamento que lhes traz muitas aflições e questionamentos?

Não há uma explicação generalizada para o medo, tal como nos são indicadas as causas orgânicas para nosso padecimento físico. Entendemos que a situação de “uma criança que tem medo” deve ser tratada de forma particular, pois é somente a partir da história de vida dessa criança e de sua família que seus motivos poderão ser compreendidos.

Entendemos que o medo, ou fobia, aponta para uma situação conflituosa que a criança está vivenciando. A criança, em seus primeiros anos de vida, passa necessariamente por uma série de conflitos, que são identificatórios e que vão estruturar seu funcionamento psíquico deste momento em diante.

Nas relações com os pais, a criança deve aprender a abandonar uma relação dual que tem até então com a mãe para introduzir-se em uma relação ternária. Há uma profunda alteração em seu mundo interno, que passará neste momento a ser constituído, além dela e de sua mãe, também pela figura paterna.

É no interior deste complexo cenário que, frente à angústia proveniente deste conflito, poderá surgir na criança uma atitude fóbica, como uma espécie de proteção ou de defesa.

Assim, diferentemente do que muitos podem pensar, as dificuldades de uma criança não estão relacionadas apenas com as situações reais (embora também devam ser consideradas) entendidas como traumáticas. Por exemplo: “meu filho tem medo de cachorro pois quando era bebê um cachorro tentou mordê-lo”. O fator traumatizante jamais é esse evento real em si, mas o que foi dito pelos adultos sobre esse evento ou o que, principalmente, não lhe foi dito. Dizemos que esses “motivos encobertos” não funcionam guiados por uma lógica racional, trata-se de uma lógica particular e inconsciente.

O tratamento analítico busca “dar voz” ao sofrimento que é evidenciado por um sintoma aparente. Assim, não há um tipo de medo que pode ser considerado “bobagem” e outro que merece ser tratado, pois é grave. Se a criança e a família se encontram em uma situação de sofrimento, este mal-estar merece crédito e respeito.
A compreensão de determinada dificuldade em uma criança, neste caso, o medo, só será possível se considerarmos seu comportamento e a linguagem infantil, em conjunto com seu histórico familiar e a dinâmica parental. Somente levando em conta este contexto que será possível estabelecer uma relação entre o comportamento da criança e um determinado objeto fóbico (o escuro, o cachorro, etc).

A forma como a criança vivenciará uma determinada situação está intimamente ligada à forma com que os adultos à sua volta lidam com esta. Em um momento de intensa emoção, os pais tendem a reagir de acordo com suas próprias referências e fantasias, seus preconceitos ou princípios educativos e muitas vezes acabam respondendo como gostariam que seus pais respondessem em sua própria infância. É de acordo com este ponto de vista que podemos dizer que “o medo se aprende”.


*É proibida a reprodução do texto publicado nesta página, no todo ou em parte, sem autorização escrita da autora, sujeito às penalidades previstas na Lei 9.610/98 de direitos autorais.

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