Freqüentemente, escuto em meu consultório pais e mães se sentindo muito culpados por não estarem perto dos filhos. As jornadas de trabalho intensas, o excesso de compromissos, o cotidiano atribulado deixa pouco espaço para a convivência familiar.
Com a entrada da mulher no mercado de trabalho a questão da maternidade ganha um outro contexto. Se antes a mulher era a responsável por cuidar da casa e dos filhos, hoje elas se vêem convocadas a responder eficientemente em mais de um lugar (mãe, profissional, esposa): cuidam da casa, do marido, dos filhos, das responsabilidades no trabalho, etc. E como meio de compensar a ausência no cotidiano familiar acabam sustentando as diversas demandas que os filhos fazem. Desse modo, compram presentes, não colocam limites, satisfazem todo e qualquer pedido dos filhos.
Ocorre, então, que a mensagem transmitida aos filhos é: “sim, o excesso de trabalho traz recompensas a você!”. “A minha ausência pode ser substituída com brinquedos, desordem, ausência de regras, etc”.
As crianças precisam dos pais. Isso não se discute. Os pais oferecem cuidado, proteção, carinho e as crianças dependem disso para viver e construir laços onde se sintam seguras. Mas as crianças também podem saber que existe a falta. Que elas podem ficar bem sem os pais, e que esta ausência não precisa ser compensada concretamente. As crianças são capazes de perceber quando os pais estão presentes, mesmo que o encontro seja curto, ou seja, a qualidade do encontro é muito mais importante do que a quantidade de horas que a família passa junto.
Cabe ressaltar que os pais podem se fazer presentes, mesmo quanto estão ausentes fisicamente. É da capacidade simbólica da criança ter armazenado internamente seus pais. Por exemplo, uma criança que está longe da mãe e se vê numa situação de conflito poderá se utilizar de lembranças ou frases que a ajudem a sair da situação conflitiva. Na escola, por exemplo, quando as crianças brigam, elas dizem aos amiguinhos: ‘”vou contar pro meu pai!” Ou elas podem se lembrar de algo que a mãe lhe disse e assim resolver a situação.
A presença concreta dos pais dentro de casa não significa, necessariamente, que haja um encontro de qualidade com os filhos. Por isso, vale refletir sobre esta tão falada ausência dos pais. E a pergunta sobre a mensagem transmitida deve ser constantemente feita.
Se houver muita dificuldade dos pais com relação a estas questões uma avaliação com um profissional pode ser de grande valia.
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