No trânsito resolvia problemas do trabalho. É comum hoje em dia fazermos do carro e do trânsito um apêndice do nosso trabalho. Resolvemos problemas, agendamos compromissos parados no transito. Neste dia resolvia um problema sério de trabalho que há tempo me angustiava.
Foi assim que me deparei com uma jovem mãe que carregava seu pequeno bebê no colo. Ela estava parada, diante do meu escritório móvel e me olhava. Pedia-me dinheiro e eu imersa no meu problema de trabalho não conseguia olhá-la. Mas sentia sua presença, percebia seu olhar.
O farol abria e fechava e eu ali parada, resolvendo meu problema e ela me olhando. Tomada por um profundo desconforto corporal traduzia aquele olhar como uma invasão. Uma olhando a outra sem, no entanto, nos olharmos. Como ela não percebia minha situação? Como eu não percebia a situação dela? Estávamos, eu e ela desamparadas.
Esta situação se traduziu num imenso incômodo e pude me haver, ao longo de meu confuso dia, com aquele olhar ausente.
Um bebê quando nasce é reconhecido por sua mãe. A mãe olha o bebê e lhe confere o estatuto de um sujeito diferenciado dela. Quando olha seu bebê, a mãe imprime seu desejo no corpo do bebê nomeando seu desconforto corporal. A linguagem contorna o corpo do bebê e, através do olhar materno surge os primeiros esboços de uma unidade que se chama EU. O Eu confuso, desde seus primórdios, com o corpo e o discurso materno. Carregamos conosco este olhar primordial que nos funda e a nossa pretensa unidade é sempre abalada. O Eu é um outro.
Lembrei-me então de um belo conto de Guimarães Rosa chamado “O Espelho”. O poeta se pergunta sobre o que é este enigmático objeto e assim diz:
“Ah, o tempo é o mágico de todas as traições...E os próprios olhos, de cada um de nós, padecem viciação de origem, defeitos com que cresceram e a que se afizeram, mais e mais. Por começo, a criancinha vê os objetos invertidos, daí seu desajeitado tactear; só a pouco e pouco é que consegue retificar, sobre a postura dos volumes externos, uma precária visão. Subsistem, porém, outras pechas, e mais graves. Os olhos, por enquanto, são a porta do engano; duvide deles, dos seus, não de mim.”
Ganhando palavras o desconforto que sentia pode ser significado. Naquela precária visão, eu e a moça que carregava seu bebê no colo nos olhávamos sem, no entanto, nos vermos, sem nos reconhecermos como sujeitos.
Nem ela me olhava, nem eu a via. Foi um encontro de duas cegas.
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