"Por que as crianças brincam?"


O brincar é um recurso que a criança tem para expressar e elaborar uma série de conteúdos de sua mente, fatos que acontecem em sua vida, sentimentos. Além de ajudar no desenvolvimento motor e cognitivo.

As brincadeiras sofrem uma grande modificação conforme a criança cresce e adquire uma linguagem mais sofisticada.

No bebê, o brincar está muito relacionado à exploração do ambiente (tão novo e desconhecido), ao conhecimento de seu próprio corpo (brinca com partes do corpo) e à aquisição das primeiras habilidades motoras. Também é um momento em que elabora alguns de seus sentimentos, como por exemplo, a angústia da ausência de sua mãe. Assim, na brincadeira em que a mãe esconde seu rosto com um paninho perguntando “Cadê a mamãe?” e em seguida, tira o pano e diz "Achou!", permite a seu filho jogar simbolicamente com sua ausência e presença, ajudando o bebê a ficar mais tranqüilo quando ela precisar sair de seu campo de visão por algum motivo.

Conforme a criança cresce, as brincadeiras tornam-se cada vez mais ricas, com cenas simbólicas e são acompanhadas de muitos relatos verbais.

O jogo simbólico permite reviver cenas que foram difíceis e, na fantasia, modificá-las. Uma criança que foi ao médico, por exemplo, poderá brincar que é o médico que trata dos doentes. Neste jogo, diferente do que aconteceu, sai de um lugar passivo de quem sofreu (como tomar injeção) e passa a ocupar um lugar ativo, podendo controlar a situação.

No brincar, a criança também se prepara para a vida adulta. Ensaia o que é ser mãe, pai, casar, trabalhar. Nessas brincadeiras, tão freqüentes do universo infantil, a criança também revive situações que acontecem em sua família, tentando elaborá-las. Uma criança poderá fazer de conta que é uma mãe muito brava – assim como a sua – e, neste jogo, tentar compreender o porquê de sua mãe ser assim. Encontrará como respostas elementos da realidade, mas também construirá fantasias que nem sempre correspondem ao que de fato acontece. Assim, é possível que fantasie que sua mãe lhe dá broncas o tempo todo porque é uma criança feia e burra, ou porque é menina e não menino como seu irmão.

Existe diferença entre os sexos na forma de brincar?

Sim, existem algumas diferenças evidentes que dizem respeito à identidade sexual e também às influências sociais (que aumentam conforme a criança cresce, já que se torna mais influenciada pela opinião dos outros). As meninas, comumente, brincam de bonecas, “casinha”, escolinha, ensaiando e correspondendo ao que o social espera de uma mulher. Já os meninos, tendem a procurar jogos em que a questão da força está presente – brincam de super-heróis, luta, bonecos com poderes especiais. Para os meninos a questão da potência adquire uma importância enorme e influenciará sua identificação, no futuro, como homem.

Meninos podem brincar de boneca?

A criança aprende desde cedo o que o social espera dela e se preocupa muito em agradar os adultos. Meninos e meninas sabem que nossa sociedade possui valores diferentes para cada sexo: para as meninas é desejado que sejam delicadas, que brinquem de bonecas, que se enfeitem; os meninos precisam ser fortes, não podem ser chorões ou delicados, devem gostar de carros, de futebol.

Quando um menino brinca de bonecas, ou uma menina gosta de carrinhos, não significa que eles estejam, necessariamente, com algum problema. Isto pode acontecer simplesmente, porque gostam, porque convivem com adultos que não estão tão presos às exigências sociais, porque são muito próximos afetivamente de uma criança do sexo oposto e tentam imitá-la em suas brincadeiras.

Entretanto, em alguns casos, pode indicar um pedido de ajuda da criança que precisa ser escutado por um profissional. Por exemplo, um menino que tem uma mãe que não se casou, não se arruma, evita os homens, pode brincar insistentemente de boneca, como uma forma de dizer que percebe que sua mãe tem dificuldades em lidar com sua própria sexualidade. Este menino, com seus jogos, torna-se “porta-voz” de conflitos que são de sua mãe e não dele.

Com a chegada da pré-adolescência e da adolescência as brincadeiras tendem a diminuir drasticamente. O jovem passa a ter uma crítica cada vez maior, distinguindo fantasia e realidade e passa a expressar-se, predominantemente, pelo verbal e por comportamentos típicos desta fase. Um adolescente que ainda brinca como uma criança precisa procurar tratamento.

A criança que muda o tempo todo de brincadeira (mal começa um jogo e interrompe), que brinca sempre só, que faz jogos repetitivos (fica rodando um mesmo objeto por horas, por exemplo) ou a ausência do brincar devem ser vistos como um sinal de alerta e merecem a procura de um analista. Podem indicar a presença de sérios distúrbios ou conflitos psíquicos.


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