O ser humano é, em primeiro lugar, um ser desejante, repleto de vontades e desejos que de certa forma dão o tom e impulsionam a vida. Não é possível estar bem, sem querer nada, o não-desejo aproxima as pessoas da morte. O desejar é infinito, faz parte da natureza humana, sendo uma forma do impulso de viver.

Essa vontade de conquistar ou conseguir coisas boas assume diferentes e inúmeras formas de expressão, podendo ser coisas materiais (carro, roupa, chocolates, viagens...), atributos físicos (mudar o cabelo, fazer ginástica...) ou mentais (aprender uma língua, se formar), ideais, sexuais ou ligadas a um relacionamento.

As pessoas desejam a todo tempo muitas coisas e se empenham para conseguir desde pequenas coisas como saborear algo especial até as grandes como uma viagem ou um casamento. Ao conquistar o objeto de desejo, a pessoa sente uma sensação de bem-estar e de prazer.

Sabemos que essa sensação é fugaz e passageira, voltamos a querer mais ou outras coisas para ter de novo aquela sensação. Algumas mulheres comentam, por exemplo, do prazer que sentem quando fazem compras ao shopping, esquecem os problemas e se sentem realizadas! Mas que sensação é essa?

Além da gratificação do próprio objeto, no fundo todos têm o mesmo significado, que é de preencher o sentimento de vazio que temos dentro de nós e afastar os sentimentos ruins de raiva, ciúme, inveja..., completando com coisas boas, que nos fazem sentir merecedores de amor, afeto.

Por isso, pessoas que passam por momentos de muitas privações, como abrir mão de coisas que gostavam, mudar o padrão de vida ou mesmo ter comprometida alguma capacidade física sofrem muito e um dos aspectos ligados a esse sofrimento, é justamente a sensação inconsciente de ser indigno ou de não merecer coisas boas, o que faz com se depare com seus receios mais profundos.

Por outro lado, há pessoas que exageram na expressão de suas vontades, não contém seus desejos e se colocam muitas vezes em situações de risco social e pessoal, abalando sua saúde, suas finanças, gastam mais do que poderiam, comem exageradamente, procuram constantemente novos parceiros sexuais.

Nesses casos, a pessoa apóia essencialmente sua segurança sobre o que conquista, sobre a necessidade de ser gratificado e de receber coisas boas o tempo todo, sendo esta uma atitude extrema para se esconder do grande vazio que sente e fugir dos conflitos pessoais que não suportaria enfrentar.

O prazer se torna cada vez mais passageiro, aumentando a sensação de vazio, fazendo com que sinta não ter nada de bom realmente e indigna de receber, então a própria busca se torna uma punição, come ou gasta demais já se sentindo culpada.

As questões relacionadas a intensidade do desejo, tanto a falta como o exagero, estão ligadas a aspectos geralmente muito antigos da história de vida individual e são de alguma forma estruturantes. A análise ajuda a reparar esses aspectos e a lidar com os conflitos escondidos que aparecem disfarçados por essas ações de extrema voracidade.


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