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Quando os filhos entram na adolescência escutamos dos pais: não entendo mais meu filho, ele reclama de tudo.., nós não paramos de brigar....e tudo o que fiz foi com tanto amor....
A compreensão dos pais para os arroubos agressivos do filho adolescente refere-se a falta de amor. Nas explosões de agressividade os filhos dizem: Eu te odeio. E os pais, feridos, sentem-se mal, muito mal. Seriam os adolescentes maus?
Outra explicação dada pelo imaginário social para os descaminhos do adolescente é a falta de amor. Pais inescrupulosos e desligados não ofereceriam o amor devido aos filhos gerando adolescentes rebeldes, abandonados.
Para que um sujeito se constitua, ele precisa necessariamente ser cuidado e investido pelos seus Outros primordiais. Tal investimento se inicia antes mesmo do bebê nascer, a partir do lugar que um bebê ocupa dentro das fantasias e desejos da futura mãe e do futuro pai.
O bebê nasce e é investido amorosamente pelos pais. Ao imprimir a linguagem nos primeiros cuidados, ao imprimir temporalidade no corpo do bebê, ao supor que ali há um sujeito mesmo que o bebê ainda não fale, há investimento libidinal, amoroso. O bebê anda e cai. Nos primeiros passos, ainda sem conseguir um controle motor adequado, ele cai ao chão e olha a mãe, antes mesmo de chorar. A mãe diz um AI, DOEU!. Ela nomeia a dor do bebê, ela olha o bebê com um olhar apreensivo e sofrido e a criança cai em choro. Mesmo sem sentir a dor da queda ela encena essa dor e mesmo que a dor da criança já tenha passado ela chora ao ver o olhar sofrido da mãe. As melecas, os arrotos, o xixi e o coco são carinhosamente investidos pela mãe. Basta escutar uma conversa de duas mães para notarmos o quanto o xixi e o cocô são temáticas constantes.
O corpo e os produtos do filhos são investidos amorosamente pelas mãe. Diferentemente dos animais, o bebê humano depende desse algo a mais, que ultrapassa a satisfação das necessidades vitais. Um filhote de ovelha precisa ser nutrido pela mãe ovelha até que ele já consiga sobreviver nos pastos sozinho. O Bebê humano precisa do investimento amoroso, precisa ser inserido neste mais além da satisfação da necessidade, precisa ser dito pelo Outro que o supõe como um sujeito do desejo.
Porém, o agente materno não está lá o tempo todo. A mãe sai e volta. Ela alterna presença e ausência pois que seu bebê, apesar de ser altamente investido por ela não é unicamente seu objeto de amor.
É a partir desta alternância que o bebê supõe que a mãe possui outros investimentos, outros objetos de amor. O pai. Se a mãe não responde o tempo todo aos apelos do bebê, quando ela se ausenta, há a inscrição da falta. Não sou tudo para ela. Ela não me ama exclusivamente. O amor deixa a desejar. Se não há alternância, se a mãe não deixa faltar não há a pergunta sobre o desejo.
Há uma estrita relação da falta com o desejo. Desejo que nos move para a busca, por uma busca que não cessa. Movimento do humano em direção aos objetos. Se o amor não deixar a desejar a busca fica impedida.
Os pais dos adolescentes entram em contato com esta questão: que o amor dispendido aos filhos deixou a desejar. Não os completou. Se a busca dos humanos é por um amor que complete, que não deixa falta, para nos constituirmos precisamos de um amor que deixou a desejar.