O anonimato está presente em nossas vidas. Acordamos, vamos ao trabalho, passamos por milhares de pessoas que não conhecemos, não sabemos o que estão pensando, o que fazem, com quem vivem. Vivemos rodeados de gente, mas isolados. Isolamento que faz com que nos questionemos se o que vivemos é mesmo real, se o outro existe e se existimos para o outro. Esse anonimato nos protege, na medida em que temos nossa intimidade preservada, mas também traz um sentimento enorme de desamparo. "Se precisar de algo quem me ajudará?" "Com quem posso contar para dividir minhas angústias, medos, preocupações?"

A família aparece aí como uma oportunidade de reconhecimento, de saída do anonimato. Ao nascermos recebemos um nome e um sobrenome. Marcas da história de uma geração, marcas que farão marcas na vida de cada um.

O nome é escolhido, na maioria das vezes, com muito cuidado pelos pais. Escolhe-se um nome carregado de sonhos, de sentidos positivos: “As pessoas com esse nome são sensíveis e batalhadoras”... “Conheci uma mulher que tinha esse nome e era muito bonita”.

No entanto, um nome sem sobrenome não é suficiente para tirar alguém do anonimato. É o sobrenome que nos torna únicos, traz um sentimento de proteção frente ao isolamento com que nos deparamos no dia-a-dia. A partir dele, podemos dizer “não sou qualquer um, sou da família tal, filho de professores, neto de italianos... sou, portanto, um italiano!” (Mesmo que nunca tenha ido a Itália, que não fale o idioma...)

O sobrenome faz, muitas vezes, com que sejamos vistos a partir de características identificadas numa família. Pertencer a uma família é herdar marcas, boas e ruins, com as quais queremos nos identificar, e outras que passamos a vida para tentar nos afastar: “conseguirei ganhar dinheiro, afinal, essa família sabe como enriquecer”... “Fulano é da família tal, família burguesa, de intelectuais, de cantores”.

As crianças desde cedo já aprendem a usar seu sobrenome como defesa. Idealizando suas famílias, sentem-se protegidas. “Meu pai tem um carro importado, sabe construir uma casa, é forte, bom em matemática...”

O difícil é quando crescemos e nos deparamos com as falhas de nossa geração, com as marcas “negativas”, com sintomas que nos afetam: “não podia ter tido um bom casamento mesmo, todos na minha família se separam” ... “estou desempregado como meu pai, os homens da família nunca deram certo”.

A família coloca uma série de desejos na criança que, por sua vez, cresce na expectativa de corresponder a esses desejos. O bebê, por exemplo, já é olhado, desejado e imaginado como possuindo diversas características: inteligente, bravo, sensível, dengoso... Esses sentimentos nem sempre correspondem ao sujeito, já que podem estar ligados a questões pessoais de quem olha a criança. Assim, uma mãe que sempre sonhou em trabalhar, em fazer faculdade, pode, ao olhar para sua filhinha, vislumbrar uma futura médica. Este olhar, mesmo que, às vezes, inconsciente, atravessará a forma como esta criança crescerá.

Precisamos dos desejos dos outros (principalmente dos cuidadores fundamentais) para que possamos crescer, sonhar e desejar. No entanto, conforme nos tornamos adultos, somos convocados, cada vez mais, a falar em nome próprio e para isso, precisamos conseguir discernir o que é de fato nosso desejo e o que é desejo do outro: “Desejo fazer engenharia ou este era o desejo de meu pai?”, “Era o desejo de meu pai, mas é também o meu?”...

A partir daí coloca-se uma questão: como sair do anonimato sem ser consumido maciçamente pelos ideais e marcas de uma geração? Como conseguir falar em nome próprio e, ao mesmo tempo, se sentir pertencente a uma família?


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