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"Reflexão sobre a Medicina Atual"

Sex, 14/03/2008 - 12:56


Um colega médico, responsável pelo ensino de residentes numa importante faculdade de medicina do Estado de São Paulo me contava, preocupado, sobre os futuros médicos que chegarão ao mercado de trabalho. Num tom chistoso, dizia que os jovens residentes estavam cada vez mais eficientes em diagnosticar e de se apropriar dos avanços tecnológicos aos quais a medicina atual está submetida.

No entanto, percebia que raramente os residentes falavam de questões subjetivas. Citou um exemplo que me pareceu bastante revelador: o jovem médico relatava ao seu superior o exame clínico que havia feito em seu paciente. Descrevia os sinais e os sintomas: hipertensão, diabetes, dores musculares, perda de pai, enxaqueca, etc... Assustado com o olhar surpreso de seu chefe, o residente caiu no choro quando se deu conta de que havia colocado no mesmo nível os sintomas físicos e um evento tão traumático como a perda de um membro da família.

Há um novo paradoxo em nossa atualidade: os incríveis avanços tecnológicos, capazes de oferecer novas pesquisas e cura para inúmeras doenças, tem tornado o homem um ser transparente, como se fosse possível observá-lo totalmente por dentro. Radiografia, Tomografia, instrumentos altamente sofisticados. Será que essa idéia do homem transparente exime do médico a necessidade de escutar seu paciente? Mas a subjetividade não pode ser fotografada. Este parece ser um olhar da nossa atualidade: um olhar absolutamente voltado para o órgão doente e totalmente distanciado do sujeito que sofre.

É nesse imediatismo, no clique da fotografia, no relato que abole o sujeito, que se “trata” de alguém que, por adoecer, se encontra num momento frágil, vacilante, angustiante. Antigamente, quando não havia hospitais, os doentes eram colocados em praças públicas. Quem passava por ali, conversava, dialogava, trazia suas experiências pessoais. E ali, provavelmente, se ouvia hipóteses do próprio doente sobre seu adoecer e as implicações da doença na vida. Era ali que também se podia chorar quando havia um luto a ser elaborado. Pois sofrimento também faz adoecer, e isso não aparece no Raio X.


*É proibida a reprodução do texto publicado nesta página, no todo ou em parte, sem autorização escrita da autora, sujeito às penalidades previstas na Lei 9.610/98 de direitos autorais.


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