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Compreende-se por parto ou “dar à luz” a saída do feto do útero materno, fenômeno este que marca o início da vida do indivíduo fora do útero. Na maior parte das culturas, a idade do indivíduo é determinada a partir desse evento.
Existem basicamente dois tipos de parto: o vaginal e a cesária.
No parto vaginal, como o próprio nome sugere, a saída do bebê é pela vagina e compreende:
- o parto natural que é o parto fisiológico onde a mulher geralmente fica de cócoras. Com o acompanhamento do obstetra, da enfermeira obstetriz ou parteira ele pode acontecer no domicílio ou nas chamadas casas de parto;
- o parto normal realizado no hospital - com ou sem uso de anestesia e com ou sem episiotomia (corte na região do períneo que evita rompimento do tecido). Em alguns casos, pode haver a utilização do “fórceps de alívio”;
- o parto na água na água que é uma modalidade de nascimento onde a mulher fica dentro da água durante o período expulsivo, o bebê chega ao mundo no meio aquático, exatamente como estava no útero. Para esse tipo de parto é necessário profissional com experiência com esse procedimento e ambiente adequados.
Já a cesariana é o parto cirúrgico onde há uma incisão abdominal para a retirada do bebê de dentro do útero da mãe e é considerado o tipo mais comum de cirurgia de grande porte. A grosso modo, a indicação de cesariana deve ser feita em casos de sofrimento fetal agudo ou quando é avaliado que a gestação é de alto risco.
Sabemos que no Brasil 90% dos partos na classe média é a cesariana. É um dado alarmante se considerarmos que nessa intervenção há o aumento do risco de morbidade e mortalidade maternas e perinatal, já que se trata de um procedimento cirúrgico como qualquer outro. Aqui, costuma-se dizer que o “normal” hoje é a cesariana pelo fato de ser o parto predominante, o que mais ocorre. Desse modo, partos operatórios sem indicação clínica constituem um problema para a saúde pública devido ao aumento do custo do financiamento à saúde, ou seja, aumento do tempo de internação e recuperação, maior necessidade de cuidados médicos e de enfermagem e maior consumo de medicamentos. A comodidade dos médicos e a promessa de ter um parto sem dor e fácil, do ponto de vista do esforço da parturiente, e ainda dentro do planejado parece determinar a incidência de cesarianas. Em contrapartida, em países como Holanda, Japão, Alemanha, Nova Zelândia dentre outros, a taxa de cesariana é pequena e infinitamente menor à brasileira.
A revolução sexual e o movimento feminista tiveram um papel importante, contribuindo para a valorização do parto natural ou normal humanizado que passou a ganhar força na vida contemporânea. Restringe-se a cesárea com o intuito de que o parto esteja associado à saúde já que estamos tratando do acompanhamento durante o nascer e não de uma situação patológica. É importante também que mesmo que se tenha um motivo para se optar por uma cesárea vale muito à pena esperar iniciar o trabalho de parto. Será ele quem vai pontuar que a hora do nascimento chegou e que o bebê está pronto para vir ao mundo. Por outro lado, existem também situações nesses países citados onde há uma imposição ao parto natural e domiciliar ficando a mulher, que por algum motivo teve que recorrer à cesárea, num lugar de desqualificação, como se ela não fosse forte suficiente para suportar a dor do parto.
Com esses dois exemplos tão discrepantes, podemos avaliar que qualquer posição mais radical deixa de levar em consideração as particularidades dos sujeitos em questão. O objetivo desse texto não é exatamente defender um tipo de parto, mas, estimular uma reflexão sobre a importância que o parto seja apropriado pela mulher ou pelo casal.
Como todos sabem, o pré-natal é a assistência médica prestada à futura mãe durante o período da gestação. Essa assistência é de fundamental importância e, durante esse período, o feto será acompanhado em seu desenvolvimento por meio do exame clínico (geralmente as consultas são mensais até o oitavo mês e, no último mês, o acompanhamento deve ser semanal) e alguns exames laboratoriais de rotina como é o caso da ultra-sonografia pélvica. É bastante comum a ansiedade na gestante, em especial, quando se trata do primeiro filho, onde tudo é novo e estranho - estranho no sentido de não familiar, de desconhecido. Por isso, verifica-se que muitas mulheres recorrem a todo tempo a exames e, buscam, sobretudo, garantir o controle de que tudo vai correr bem - exatamente como ela imaginou - e o bebê nascer dentro de condições ideais. Por isso é fundamental que caiba, nessas consultas, a construção de uma relação mais próxima da gestante e/ou do casal com o médico obstetra ou com o profissional que realizará o parto, criando, assim, um lugar de esclarecimento de dúvidas e reflexão sobre o parto. Uma relação de confiança é primordial se considerarmos a delicadeza desse momento de gerar e parir.
Os nove meses da gestação devem ser utilizados para que a gestante e seu parceiro se preparem psíquica, física e emocionalmente para o momento do nascimento, uma vez que a maternidade e a paternidade não são algo espontâneo nem repentino e, sim, algo construído e que exige tempo para que os sujeitos possam viver e se apropriar dessa transformação.
Sabemos que na gestação, as mudanças no corpo feminino são muitas e, na maior parte das vezes, vividas pela mulher de forma intensa. Nesse sentido, é importante que ela perceba como o seu corpo vai se comportar com a aproximação do nascimento do bebê. É natural que ela se preocupe e se angustie durante essa espera, pois mesmo com os avanços tecnológicos e os exames inovadores sabemos que é um período marcado por incertezas e sempre há algo que escapa do planejado e que é da ordem do imprevisto. Transformações são percebidas concretamente no corpo feminino, mas também na relação do casal, estendendo-se para toda a vida dos mesmos. É bastante comum escutarmos “um filho mexe com tudo..., depois que tive filho tudo mudou”. E ainda: “filho é um compromisso pra vida inteira”. Por isso, ter um lugar para falar dessas inquietações que acompanham a gestação deve ser validado e, em muitos casos, é imprescindível uma escuta mais cuidadosa possibilitada, por exemplo, pelo processo analítico.
Como o próprio nome diz, o trabalho de parto dá trabalho de verdade a todos os envolvidos: para a mãe que sente dor, desconforto e que tem que fazer força, para o bebê que tem que se movimentar para sair do útero e também para o médico que deve ter disponibilidade para acompanhar esse processo e prontidão para acolher os imprevistos.
E a pretexto de concluir, apropriar-se do parto significa, então, recuperar uma postura mais ativa diante desse acontecimento, isto é, a chegada de um ser, onde a mulher deve se implicar e não ficar limitada à intervenção ou decisão médica. É um processo exigente que demanda investimento e assumir uma posição, pois, como tantas outras coisas da vida, ele deve estar conectado à história pessoal, à história do casal, à questão cultural e ideológica de cada grupo e de cada indivíduo. Portanto, o parto não é um evento qualquer e sim algo especial, que marca e produz marcas... Dificilmente alguém se esquece desse dia e por isso ele deve acontecer consoante com a escolha. E essa escolha não é tão simples nem imediata... Para escolher é preciso reconhecer o desejo e fazê-lo triunfar!