"Sempre faço dívidas, não consigo me planejar e isso me deixa muito aflita. Preciso de ajuda. "(M. 35 anos)

A palavra dívida tem sua origem no latim Debita. Esta palavra pode ser traduzida por: obrigação, dever moral, compromisso. Pode também se referir a um estado: dever a alguém ou estar em falta com alguém.

Se nos atentarmos a esta ultima definição podemos notar que a questão da divida está sempre atrelado á um outro: o estado de dívida se refere a um outro, eu devo a alguém ( a um banco por exemplo, ou a um amigo que me emprestou dinheiro ou mesmo a um boleto que deve ser pago num banco). A dívida é silenciosa, ela corre solta nos bancos, no nosso psiquismo, sem fazer barulho até que num dia se transforma em algo catastrófico. A conseqüência psíquica deste estado de divida é a sensação de estar em falta com algo ou alguém, o que acarreta muito sofrimento a quem se encontra neste estado. A origem da dívida pode ser procurada na origem da constituição psíquica e de alguma maneira podemos pensar que já nascemos com alguma espécie de dívida.

Desde os primórdios da nossa existência dependemos de uma ação específica do outro, função geralmente exercida pela mãe e função que garante a sobrevivência psíquica e biológica do bebê. O bebê humano não é capaz de sobreviver sem esta ação específica. Dependemos da linguagem, do cuidado, do conforto que é sempre proporcionado pelo outro. Há sempre um que fornece mais e o um outro que recebe. A conseqüência desta dependência é paradoxal: Se por um lado sobrevivemos, por outro nunca nos livramos disto que nos fez surgir nascendo aí uma dívida que nunca é completamente resolvida. É habitual e freqüente que se escute de mães que atravessam fases complicada com os filhos: “Mas eu que me doei tanto, que fiz tanto por você, eu não merecia isso”. Esta frase exemplifica a relação de dívida que frequentemente se estabelece entre pais e filhos e que revela que de alguma maneira a doação e ação específica dos pais não é sem preço, por mais amor que haja nesta relação. Os filhos, por sua vez, sentem-se culpados por nunca conseguirem retribuir a tudo aquilo que os pais fizeram por ele. E assim eles dizem: “Nada do que eu faço é suficiente, eles nunca se contentam”.

Com os adultos e principalmente com os casais a dívida se expressa nos inúmeros mal-entendidos surgidos no cotidiano. Um diz: “Eu sempre lavo a louça”, e o outro: “Você é sempre bagunceiro”. A dívida fica explicitada.

Há então uma dívida simbólica que nos é intrínseca e que só pode ser falada e trabalhada num espaço analítico, com um psicanalista. No entanto quando esta divida se transforma num sintoma, a vida fica prejudicada. E se pensarmos que o sintoma tem um caráter de uma mensagem cifrada, ele pede um interlocutor, alguém que faça esta leitura e que ajude o sujeito a encontrar as origens de suas dívidas que são sempre singulares, pessoais e intransponíveis, só o sujeito pode saber para quem e com quem ele deve prestar suas contas.


*É proibida a reprodução do texto publicado nesta página, no todo ou em parte, sem autorização escrita da autora, sujeito às penalidades previstas na Lei 9.610/98 de direitos autorais.