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A afirmação de que as palavras exercem certo poder é bastante apropriada ao psicanalista, já que a palavra é seu instrumento de trabalho, sendo considerada uma das vias privilegiadas de acesso ao inconsciente. Quem não se recorda de uma frase que trouxe orgulho, raiva ou vergonha, ou de frases enunciadas pelos pais, professores e também por aqueles de quem não se gosta. Algumas palavras trazem afetos e lembranças que, ao serem escutadas, trazem à memória com muita vivacidade cenas importantes da vida. Todo mundo, antes de poder dizer, é falado. Os choros, os comportamentos e as sensações dos bebês vão sendo colocados em palavras por terceiros. Assim, se escuta: “meu filho é bonzinho”, ou então, inteligente, arteiro, triste e assim por diante.
E estas falas produzem efeitos, que se revelam de diversas maneiras nos quadros psíquicos. Entretanto, não são as palavras isoladas as únicas responsáveis pelo ato de dizer. A forma, ou seja, como se diz é de notável importância. Quando alguém fala rápido parece ansioso, se fala sem pensar pode ser considerado impulsivo ou quando fala pouco parece ser inibido. Outro aspecto é o tom da voz que pode ser baixo, enérgico, sem vitalidade. Neste último caso, a voz sem tônus pode sugerir um quadro depressivo. O ritmo pode ser acelerado, lento demais, reticente, imperativo ou duvidoso desvelando as infinitas facetas da personalidade.
Há outros quadros que se manifestam pela fala: mutismo, gagueira, logorréia (a fala excessiva). Em quadros como a psicose, a fala fica muito particularizada (palavras inventadas), ou seja, é de difícil compreensão, o que impossibilita a comunicação.
A fala também porta muitas expressões, que podem ser muito sugestivas: “o outro fala por mim” ou “falo pelos outros” ou ainda “não falou nada com nada”. Essas frases constituem exemplos da liberdade ou do aprisionamento que cada um vive ao colocar as próprias idéias e sentimentos em palavras. Muitas pessoas costumam dizer: “falo como o meu pai”, “minha mãe dizia ...” e de tal modo repetem frases que não são de sua autoria.
Quando o sujeito fica demasiadamente aprisionado ou sem limites para falar é motivo de preocupação. Isso porque a questão do falar está intimamente ligada ao posicionamento de cada um perante suas próprias idéias, pensamentos e fantasias e ao estilo de seus relacionamentos. O que está silenciado, não-dito, de alguma forma aparece na forma de chistes (piadas ou brincadeiras), esquecimentos, comportamentos, atos falhos e estes precisam ser colocados em palavras para a escuta do que está sendo revelado.