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Semana passada passamos por algo que já nos é conhecido: caos, chuva, transito, alagamento. Nos noticiários, pessoas relatando o sofrimento por terem perdido bens absolutamente preciosos. Frequentemente sentimo-nos assolados pela força da natureza e pela impotência que sentimos diante desta força.
Em 1929, Freud escreveu um texto brilhante intitulado “Mal estar na Civilização”. A atualidade deste texto é indiscutível. Neste trabalho o autor propõe a reflexão das dificuldades vividas pelo humano em viver em sociedade. Para Freud, é necessário haver uma renuncia da agressividade e da vida pulsional do sujeito para que se possa viver na sociedade. Tal agressividade, constitutiva e necessária ao humano deve encontrar outras formas de escoamento e transformação, implicando num trabalho psíquico constante do sujeito.
Neste mesmo trabalho, o autor destaca três grandes fontes de sofrimento do humano: o corpo, fadado ao fracasso, o mal estar inerente ás relações sociais e a impotência diante da força da natureza. No dia-a-dia não nos damos conta do trabalho psíquico ao qual estamos submetidos para viver na sociadade. Trabalhar, amar, se relacionar e se apropriar do corpo são tarefas que nem sempre são bem sucedidas. Apesar da sociedade nos oferecer proteção e continência para tocarmos o nosso dia –a-dia faz-se necessário manejar e trabalhar com a insuficiência do projeto amoroso, da competição com o nosso próximo e com o fato de que as relações não se servem apenas do amor para se constituir. Driblar o fato de que somos seres humanos dotados de agressividade, incoerências e caos pulsional é o projeto não dito de nossa sociedade que prega, através dos prozacs e ritalinas, a saída para o mal estar do humano.
Tal projeto, longe de ser eficiente, apenas protela o surgimento do mal estar fazendo-o surgir através de outros meios. Um deles é o próprio corpo. Não é sem razão que assistimos jovens anoréxicas brincando com a morte. Não é sem razão tampouco que assistimos crianças extremamente medicadas com a possibilidade de seu dizer silenciada. São inúmeras as tentativas de nossa atualidade de debelar o impossível, aquilo que não tem representação.
A força da natureza está aí para nos dizer que não controlamos tudo, que algo pode insistir sem que possamos nos assenhorar de alguns acontecimentos. Será que a melhor maneira de nos confrontarmos com isso é não contar com o impossível, supondo que o bem estar deve reinar sempre? Recomendo a todos a leitura deste belo texto.