A morte sempre foi e sempre será para muitas pessoas fonte de intensa angústia e medo. Mesmo que não seja possível prever o fim exato da vida, para alguns a morte é uma fantasia bastante presente, mas há aqueles em que a morte é uma possibilidade preemente, pois sabem que não tem muito tempo de vida, por apresentarem doenças graves e em estado terminal.

Em meu percurso profissional, pude acompanhar crianças, adolescentes e adultos bastante jovens que estavam desenganados pelos médicos, pois não havia possibilidade de cura de suas doenças. Viviam na condição de extremo sofrimento e solidão.

No entanto, houve um momento inesquecível de uma adolescente estrangeira que veio procurar tratamento no Brasil. Seu quadro se agravou e se tornou uma situação insuportável para a jovem, devido a conjunto de fatores médicos (medicação, tratamento, internação) e subjetivos (solidão, saudade, tristeza).

Para ela havia duas escolhas, tentar prolongar a “sobrevida” por meio de tratamentos infindáveis (aqui no Brasil) ou retornar ao seu país e realizar tratamento paliativo. A equipe sugeriu que ela ficasse, mas abriu a possibilidade de escolha. Seus pais queriam tentar até o final para encontrar a tão prometida cura.

No entanto, como sua analista, pude escutar seu último desejo que era ficar acompanhada por seus amigos e familiares em sua terra natal. Ela percebia o seu estado de saúde e sabia que não teria muitas perspectivas de cura. Mesmo estando fraca fisicamente, ela conseguiu verbalizar seu desejo aos pais, que se recusaram num primeiro momento, pois ainda tinham esperança.

A mãe desesperada veio me procurar e sugeriu que eu a convencesse em ficar. Durante essa sessão surgiu a questão de quem era o desejo de ficar. Surpreendentemente, a mãe, mesmo vivendo uma dor intensa, escutou o desejo da filha e decidiu retornar ao país de origem, pois lá ela receberia o tratamento adequado. Após algumas semanas, recebi uma carta de sua família, comunicando o falecimento e os últimos momentos de felicidade que pôde ter, pois não ficou sozinha.

Tocada por essa situação, refleti bastante sobre a presença do desejo, mesmo diante da crueldade da realidade da doença, quando esta anuncia uma morte iminente. Foi possível pensar também que a equipe que trabalha com os sujeitos em estado grave, pode considerar a possibilidade deles manifestarem seus últimos desejos de acordo com a ética.


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