Ao escutar a notícia de crianças que sofrem violência cometida por seus genitores, a primeira pergunta inquietante que surge à mente é: “pais poderiam fazer isso?”
Estatísticas revelam que a violência dirigida à criança é, em sua maior parte, cometida pelas pessoas que mantêm um vínculo de bastante proximidade, em geral, seus pais. O mais intrigante é que essa situação é muito freqüente.
A violência contra os filhos pode se revelar de diferentes maneiras pela violência física (agressões), psicológica (humilhação, ofensas, ameaças), sexual (abuso, estupro, sedução) e negligência (abandono e ausência de cuidados).
Independente do modo como a violência é denominada, o que produz intenso espanto é que, quando a violência ocorre em classes sociais excluídas, não se percebe a mesma repercussão. Socialmente, a violência é facilmente associada à pobreza e a dita “ignorância”.
Quando a violência acontece em situações em que estas justificativas reducionistas são insuficientes, abre-se outra discussão sobre a possibilidade de existir violência nas classes sociais em que o aspecto econômico e educacional não são colocados em questão.
O que leva uma pessoa a um ato de extrema violência?
A violência não surge repentinamente, dificilmente, alguém se torna violento do “nada”. De modo geral, anterior ao ato de violência, percebe-se a manifestação de agressividade, sentimentos intensos de ódio e raiva, pensamentos hostis, indiferença, intolerância, impulsividade, autoritarismo e até mesmo tristeza. A pessoa apresenta dificuldade em lidar com as frustrações, reagindo de modo explosivo, desproporcional à situação vivenciada. Implícito a isso, o genitor acredita poder fazer o que quiser com o filho, como se fosse sua propriedade, exercendo um poder “fora da lei”, ou seja, sem limites.
Na violência intrafamiliar, os pais precisam ficar atentos diante das manifestações acima descritas. Obviamente não se pode idealizar a relação pais-filhos dizendo que nunca sentirão raiva ou frustração. Mas há uma grande diferença entre ter momentos de raiva esporadicamente, diante de eventos em que o filho fez algo que realmente provocou a ira nos pais, e cometer atos de violência devido aos sentimentos hostis constantes.
Não se pode jamais banalizar a violência, acostumando-se à ela e também não se pode perder a capacidade de indignação. Começando pelas pessoas que são próximas, a família jamais deve recuar e deixar de interferir quando perceber a violência dos pais contra os filhos.
Os profissionais também precisam estar atentos aos sinais de violência. Os profissionais de saúde precisam estar instrumentalizados para diagnosticar esta situação. Na escola, os professores são os mais indicados, pois convivem com a criança diariamente.
A criança ou adolescente que vive situações de violência pode alterar seus comportamentos, seu humor, seu interesse nos estudos e suas relações com os pares. Além das marcas corporais (lesões, hematomas, arranhões, queimaduras).Podem apresentar comportamentos agressivos ou demonstrar medo intenso. Outra forma de expressão são os desenhos e as confissões entre os amigos. As crianças costumam faltar na escola devido às lesões ou por negligência dos pais. É sempre importante se conhecer os motivos que levam uma criança a se ausentar da escola. De algum modo, sempre há um sinal de que algo está acontecendo com ela.
Quando houver a percepção de que há uma situação de violência pode-se encaminhar o caso para os serviços de saúde, conselhos tutelares ou instituições que tratem da violência doméstica.
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