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A contundência da discussão sobre as saídas da criança à problemática fálica reside nas evidências clínicas sobre o lugar que esta vem ocupar na estrutura familiar. Não há dúvidas de que na infância há uma sobreposição da subjetividade da criança e de seus pais, assim o sintoma na criança atualiza conflitos que podem ser da mãe, do pai ou do casal. No entanto, não se pode desconsiderar a criança como um sujeito, o que a leva a ter um papel ativo na escolha de sua posição subjetiva.
É a partir dos três tempos do Édipo que Lacan pensou nos desfechos clínicos na constituição do sujeito. O Complexo de Édipo tem como função o enodamento entre os registros: real, imaginário e simbólico. Demanda também operações lógicas que são determinantes às estruturas clínicas (neurose, psicose e perversão). A questão fálica: ser ou não ser o falo; tê-lo ou não tê-lo; não é a mesma nas diferentes estruturas. O sujeito fica colocado numa situação de escolher, porém Lacan assinalou:
"Ponham esse escolher entre aspas, porque o sujeito é tão passivo quanto ativo nisso, pela simples razão de que não é ele quem manipula as cordinhas do simbólico. A frase foi começada antes dele, foi começada por seus pais, e aquilo a que pretendo conduzi-los é precisamente a relação de cada um desses pais com essa frase começada, e a maneira como convém que a frase seja sustentada por certa posição recíproca dos pais em relação a ela. Mas, digamos, uma vez que convém nos exprimirmos bem, que existe, em termos neutros, uma alternativa entre ser ou não ser o falo". (1999, p. 192)
É uma etapa conclusiva, pela via da posição que a criança ocupa, como portadora de um sexo com o qual se identificou, sendo também designada por um nome. A conclusão desta fase, a Edípica, será reeditada durante a vida do sujeito, parte das perguntas concernentes à questão: O que o Outro quer de mim? É desta pergunta da criança com relação ao desejo do Outro, que os desdobramentos do sujeito encontram sua via de expressão. Estes lugares onde a criança pode ser colocada no cenário familiar entrelaçam a rede simbólica na qual o bebê se depara.
De modo bastante complexo, existem inúmeras facetas que compõem esta trama de desejos: seja o desejo pelo filho sujeito ou objeto. Quanto à questão de que muitos se ocupam em dizer se a criança foi desejada ou não, Ricardo Rodulfo (1990) enfatizou que o mais importante é desvelar o estatuto do desejo no qual o filho se insere. O filho pode responder à questão sobre o desejo do Outro e na construção de seu fantasma se localizar no estatuto de sintoma do casal, no estatuto de fantasma materno e também como sujeito.
Na primeira infância trata-se quase sempre de uma reativação dos conflitos dos adultos responsáveis pela criança. A criança inconscientemente está informada de que deve exercer um papel regulador, como uma prótese enganadora, aparentemente substituta econômica da falta, mas que não a poupa de um sofrimento.
No texto “Duas notas sobre a Criança” Lacan (1986) relatou que o sintoma da criança pode responder ao que há de sintomático na estrutura familiar, podendo também corresponder à subjetividade da mãe. No primeiro caso, o sintoma da criança representa a verdade do casal parental: o filho marcado pelos sonhos dos pais, do casal, representante do narcisismo destes, além de ser alimentado pelo discurso social. É o filho criado pelo imaginário, herdeiro dos sonhos mais remotos do cenário edipiano.
Nessa posição de herdeiro o filho como sujeito, é efeito do encontro de dois desejos sexuais. Filho que não é apenas objeto de desejo de sua mãe ou de seu pai, mas aquele que é reconhecido em sua diferença, ficando submetido à transmissão de leis, interdições. Nesta posição, a criança está situada em seu corpo, simbolizado pela palavra, por isso, segundo o autor, esta posição é mais favorável à intervenção analítica.
No segundo caso, a criança está capturada pelo fantasma materno, nesta condição a criança tem a função de revelar a verdade do objeto de desejo da mãe. A criança realiza o que Lacan (1986) chamou de objeto a no fantasma, saturando a falta da mãe. A criança nesse estado fica como sendo puro Real: objeto a, como um produto que caiu, da mãe, sendo o protótipo desta queda o nascimento, situação de pura angústia. “Ela aliena em si todo acesso possível da mãe à sua própria verdade, dando-lhe corpo, existência e mesmo exigência de ser protegida” (ib.id., p. 13).
Nesse último exemplo, a criança permanece como filho-objeto, que completa a mãe. Surge de um enunciado, ficando preso a este como causa do desejo materno e assim não consegue encontrar saídas para esta posição ficando, portanto, aprisionada. Uma outra figura que pode corresponder à acepção de filho-objeto é a figura do filho que vem responder aos votos mortíferos da mãe, reencarnando lutos impossíveis de serem realizados (como a morte de um filho que não foi elaborada, perdas relacionadas ao corpo e a própria vida anterior à maternidade).
Assim, o testemunho do advento do sujeito desejante se constitui por um corte no campo do Outro, uma partição. O Outro, como lugar da linguagem, é barrado, registrado por uma falta que jamais será recoberta e que, pela via do simbólico, o sujeito tenta dar sentido pela palavra. O sujeito, então, será efeito da inscrição significante, pois o Real do corpo quando tomado pela palavra, deixa de ser puramente Real.