A criança e o adolescente compartilham, como todos nós, de uma estrutura familiar que está colocada desde a origem. O sujeito que se constitui estabelece uma inter-relação com essa estrutura, cujo valor é inestimável, pois é, a partir dessa, que cada sujeito extrai elementos e se identifica aos traços que são “eleitos” por ele, servindo como referência ao narcisismo, à imagem do eu.
A família, por sua vez, não está isolada do contexto social, está entrelaçada por valores, normas e pactos ligados aos movimentos da cultura vigente. Nos tempos atuais, ela vem se configurando de modo distinto, os casais estão se separando, há muitas famílias monoparentais, casais homossexuais, percebe-se o declínio do lugar do pai. Assim, são incorporadas mudanças de uma sociedade que tem sido, cada vez mais, influenciada por valores capitalistas. Nessa lógica as “coisas” passam a ter valor de mercado; a ética e a moral tornaram-se subordinadas a essa nova forma de gozo, no qual o prazer é substituído pela satisfação a todo custo, de um gozar sem limites. O mais agravante na contemporaneidade é a oferta da sociedade de uma infinidade de objetos que estão disponíveis para essa função.
A família moderna, então, tem estabelecido suas bases nesse social, e percebe-se que o sagrado, o proibido, o imoral, o pudor, o inacessível não têm funcionado como barreiras. Por exemplo, a sexualidade que antes possuía leis reguladoras do que é ou não permitido,hoje vêm sendo banalizadas. O sexual tem retornado e operado hoje com mais intensidade, a censura não tem sido efetivada. O que antes era considerado tabu, tem alcançado possibilidades de realização, assim a pedofilia e o incesto, extremos de proibição, são fenômenos muito freqüentes, e encontram espaço de veiculação, assustadoramente, como a internet o faz. É desolador, para nós brasileiros, saber que o nosso país é famoso por esse tipo de violência.
Essa marca, sobre o lugar da sexualidade na criança e na juventude na sociedade e, portanto, na família, faz parte de uma rede simbólica que é responsável pela transmissão de leis, que controlam as manifestações e estabelecem a ordem social. A proibição do incesto funciona como a mais importante interdição à manifestação de uma sexualidade que não pode usufruir de todos os objetos. Aos filhos e aos pais coloca-se a grande limitação à realização de uma suposta satisfação possibilitada pela completude. Proibir a realização dos desejos incestuosos traz a mensagem de que não se pode fazer do outro objeto de gozo.
A violência, seja ela física, sexual, moral, é um ato em que o outro é feito de objeto. Esses atos são repetições e se referem, possivelmente, às pendências da falta de elaboração de angústias. Na revivência dessas cenas, o real, mais uma vez, se faz presente.
No meio psicanalítico há diferenças na leitura sobre o fenômeno da violência, se seria conseqüência de um evento traumático ou resultante de fantasias traumáticas. Qual é a origem exata não importa ao psicanalista, porém não podemos refutar o impacto do “trauma”, devido à emergência do real na vida do sujeito, quando o pai ou a mãe efetivam seus atos violentos na prole.
Esses eventos podem deixar marcas, pois existem atos que não são possíveis de serem significados, pois invadem a subjetividade com o excesso de dor e sofrimento e, porque não dizer, pela satisfação sádica da violência. Essas vivências podem reaparecer na criança e no adolescente na forma de atos, atuações, fenômenos psicossomáticos, alucinações, silêncio, que podem perpetuar na vida dos sujeitos que tiveram essas marcas e podem continuar por gerações, pois como se sabe, o real não cessa de se inscrever.
A possibilidade que existe para interromper esse ciclo vicioso, entre ser aquele que sofre a violência, perpetua ou provoca, encontra-se no sujeito, como posição desejante. Aqui falo do sujeito que escutamos na análise e se posiciona diante do ser "objeto da violência".
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