A prematuridade do ser humano é muito importante em termos psicanalíticos. Sua constituição como sujeito se processa no ambiente cultural, na linguagem, o que o torna totalmente dependente do outro não só biologicamente como psiquicamente. Nesse sentido Lacan (1999) ressalta que a constituição do sujeito advém do campo do Outro.
O infans, para o autor, nesta dependência, se aliena na imagem de um Outro, no desejo da mãe: “O que a criança busca, como desejo de desejo, é poder satisfazer o desejo da mãe, isto é, to be or not to be o objeto do desejo da mãe”.
Segundo Dor (1991), o pai aparece como um terceiro que faz corte na relação fusional do filho com a mãe, introduzindo-o assim, na castração simbólica, o que possibilita a linguagem, permitindo o encontro do sujeito com a alteridade. Dessa forma, a operação da função paterna tira a criança do assujeitamento ao desejo materno (gozo mortífero), colocando-a num lugar ativo, de sujeito desejante. A criança sai assim do lugar de quem é falada para o lugar de quem fala (sujeito da linguagem).
Esta condição de dependência do infans marca a intervenção analítica: além de ser sempre trazida por um adulto que é quem faz a queixa, seu sintoma está entrelaçado às questões do par parental (cuidadores fundamentais), o que convoca o analista a escutar os pais ao receber uma criança. Como nos diz Rosenberg (2002): “No caso da infância existe uma sobreposição, ou uma superposição, na formação da subjetividade entre a dinâmica psíquica da criança e de seus progenitores” .
Freud (1909), ao relatar o caso do Pequeno Hans já coloca em evidência a importância dos pais nas questões psíquicas da criança. É por meio do pai e de sua transferência que se dá a análise de Hans, onde fica ressaltado a relação entre as questões edípicas do menino e a formação de sua fobia.
Para a Psicanálise, portanto, os pais têm um papel fundamental na formação dos sintomas da criança na medida em que esta é colocada num lugar determinado pelas fantasias e desejos do casal e irá tentar responder às questões do desejo materno. É neste sentido que Mannoni diz: “Naquele ponto em que a linguagem termina, é o comportamento que continua a falar, e quando se trata de crianças perturbadas, é a criança que, pelos seus sintomas, encarna e presentifica as conseqüências de um conflito vivo, familiar ou conjugal, camuflado e aceito por seus pais”.
É esta relação das fantasias parentais com o sintoma da criança que coloca o analista na função de um agente separador, onde sua escuta irá efetuar um corte entre a demanda dos pais e o sintoma do infans, retirando a criança de uma posição alienada. Nesse sentido, Rosenberg afirma: “Pensar o processo de análise não só como função rememoradora, estritamente regressiva, mas também como produtora, permitindo ao sujeito criação de nova subjetividade”.
Em “Duas Notas Sobre a Criança” (1969), Lacan distingue dois tipos de posicionamento que a criança pode assumir frente ao discurso parental. No primeiro, a criança responde ao que há de sintomático no casal, nesse sentido, seu sintoma é um representante da verdade do desejo dos pais. O autor afirma que este caso é mais permeável à intervenção analítica, uma vez que houve a operação da função paterna, existindo uma certa separação mãe-criança, sendo possível situar um sujeito.
No segundo tipo de posicionamento, encontramos o sintoma que diz respeito à subjetividade da mãe, onde a criança está fusionada à mãe, ficando sujeita às todas capturas fantasmáticas. Segundo Lacan, este caso é mais refratário à intervenção, já que a criança está assujeitada ao desejo materno, não havendo a intervenção de um terceiro. A criança é colocada no lugar de objeto que satura a falta materna, realiza a presença do objeto a: "Ela aliena em si todo o acesso possível da mãe à sua própria verdade, dando-lhe corpo, existência e, mesmo, exigência de ser protegida” .
Bibliografia
Dor, J. (1991). O pai e sua função em Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
Freud, S. (1909) – Análise de uma fobia em um menino de cinco anos. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
Lacan, J. (1998) – O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica. In: Escritos – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
______. (1969) - Duas Notas sobre a criança – in opção Lacaniana, no 21, abril, 1998.
______.(1999) - O seminário, livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
Mannoni, M. (1981)– A primeira entrevista em psicanálise. Rio de Janeiro: Campus.
Rosenberg (2002) – O lugar dos pais na análise de crianças. São Paulo: Escuta.
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