Neste trabalho Freud aborda, por meio da descrição de um caso clínico, a questão da sexualidade nas mulheres.
Trata-se de uma paciente de dezoito anos que se encantara por uma “dama da sociedade”, dez anos mais velha, a ponto de abandonar todos seus outros interesses para admirá-la. Tal dama tinha relações promíscuas com vários homens e mantinha relações íntimas com uma mulher casada.
A paciente, segundo seus pais, nunca havia demonstrado interesse pelo sexo oposto. E, em anos anteriores, já havia apresentado sentimentos intensos por outras mulheres.
Freud destaca uma cena de fundamental importância. Certo dia, quando a jovem estava na presença da dama, seu pai apareceu e as olhou com raiva. Frente ao olhar do pai, a jovem tentara, imediatamente, o suicídio.
Após seis meses do ocorrido, os pais procuraram Freud.
O pai era um homem sério, rígido. Era tomado por uma profunda cólera frente ao homossexualismo da filha, tentando combatê-lo por meio de medidas enérgicas e até mesmo, agilizando um casamento para ela.
A mãe era uma pessoa jovem, vaidosa e que já havia apresentado sintomas neuróticos. Não se opunha à relação homossexual da filha (era até mesmo sua confidente) a não ser pelo fato desta se tornar pública. Chamava a atenção a diferença com que tratava os filhos: enquanto tratava os filhos com bastante mimo, era fria com a filha (a via como uma rival e por isso interferia na relação dela com o pai).
“A paciente era sempre reservada no que dizia sobre a mãe, ao passo que, em relação ao pai, nada disso acontecia” (p.161).
Freud salienta que o fato da jovem ter sido levada ao tratamento, ao invés de solicitá-lo por sua própria vontade, coloca dificuldades ao trabalho analítico. Um outro fator desfavorável à análise era o fato da paciente não estar doente (não apresentava sintomas histéricos ou queixas), sendo o objetivo do trabalho a remoção do homossexualismo.
Neste sentido, o autor afirma que a retirada da inversão sexual é, muitas vezes, fadada ao fracasso, já que o homossexual não se mostra disposto a abandonar seu objeto sexual, apesar das pressões sociais e familiares.
Freud divide a análise em duas partes. A primeira consiste na obtenção de informações necessárias e na familiarização do paciente com a técnica da psicanálise. A segunda fase é marcada pela recordação, repetição e elaboração do material inconsciente (superação das resistências). No caso descrito neste trabalho, a análise limitou-se à primeira fase (exploração analítica) em função de uma grande resistência .
No início do tratamento, Freud é informado pela paciente que ela nunca havia tido relações sexuais com a dama e que, apesar de desejar a mulher, estaria disposta ao tratamento por amor aos pais (fato que levaria à interrupção da análise).
O que chama a atenção é o fato da jovem ter assumido um papel masculino na relação com a dama, se portando como um amante (humildade, supervalorização do objeto sexual, renúncia à satisfação narcísica). “Havia, assim, não apenas escolhido um objeto amoroso feminino, mas desenvolvera também uma atitude masculina para com esse objeto” (p.166).
Com relação à história sexual, Freud constata que a paciente passara normalmente pelo Complexo de Édipo (posteriormente teria substituído o pai pelo irmão mais velho) e não apresentava nenhum trauma sexual. A constatação da diferença sexual (em torno dos 5 anos ao comparar seu corpo com o de seus irmãos) trouxe grandes conseqüências psíquicas.
Aos treze anos apegara-se a um menino de 3 anos, fato que faz Freud inferir a presença de um desejo de ser mãe. No entanto, tal afeição foi logo substituída por um intenso interesse por mulheres maduras (que foi repreendido pelo pai).
Aos dezesseis anos sua mãe engravidara. Acontecimento que o autor vai dar extrema importância, já que a partir daí a jovem passa a se interessar por mulheres que são mães. “A análise da jovem revelou, sem sombra de dúvida, que a amada era uma substituta da mãe” (p. 168). No entanto, em virtude da dificuldade de encontrar mães com tendências homossexuais, a maternidade como condição fundamental da escolha amorosa foi abandonada.
O impacto que causara a gravidez da mãe deve-se ao fato desta gravidez ter acontecido justamente na puberdade da paciente, momento em que estava revivendo seus sentimentos edípicos, apresentando o desejo de ter um filho do pai. Assim, sentiu-se desapontada, traída, pois quem engravidou foi sua mãe e não ela; por este motivo ficou magoada com o pai e com os homens, renunciando à sua feminilidade (procurou outro objeto sexual - regressão ao narcisismo). “Ela se transformou em homem e tomou a mãe, em lugar do pai, como objeto de seu amor” (p.170).
Além disso, a escolha homossexual oferecia um ganho secundário, que visava diminuir a hostilidade da mãe para com ela: ao desistir dos homens os deixava para a mãe e assim, não precisavam mais competir.
O fato de descaradamente sair com a dama mostrava o quanto queria que o pai soubesse de sua escolha, pois só assim poderia vingar-se dele, desafiá-lo.
“Era notável, também, que ambos os genitores se comportavam como se entendessem a psicologia secreta da filha. A mãe era tolerante, como se apreciasse a ‘retirada’ da filha como um favor feito a ela; o pai se enfurecia, como se compreendesse a vingança deliberada dirigida contra ele” (p.171).
A repulsa pelos homens também apareceu na transferência, em que a paciente adotava uma atitude de indiferença frente às colocações do analista. Foi nesse sentido que Freud aconselhou aos pais que o tratamento deveria ser continuado por um profissional do sexo feminino.
Freud salienta que a escolha pela dama, apontava para a existência da bissexualidade, já que, além de satisfazer os desejos homossexuais (ideal masculino), satisfazia também os heterossexuais (ideal feminino) - a amada apresentava características físicas que lembravam muito seu irmão mais velho.
Com relação à tentativa de suicídio em que caíra no trilho ferroviário e que antecedera a procura de tratamento, Freud a analisa como determinada por dois motivos: autopunição (culpa com relação aos sentimentos ambivalentes que tivera pelos pais) e realização de um desejo. Para explicar a realização do desejo (ter um filho do pai), o autor faz um jogo com o verbo niederkommen que tem um duplo sentido: dar à luz e cair. A autopunição também é interpretada aqui como a realização de um desejo, já que se matar estaria relacionado ao matar o objeto a que se identificou e que mantinha sentimentos hostis (genitores).
Freud finaliza seu texto retomando brevemente questões da sexualidade humana que aborda mais profundamente nos Três ensaios sobre a sexualidade (1905) - como a bissexualidade e a etiologia da inversão (que englobaria caracteres sexuais físicos, mentais e o tipo de escolha de objeto).
Bibliografia
Freud, S.(1920) A psicogênese de um caso de homossexualismo numa mulher. In: Obras psicológicas completas: Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
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