Sempre que se aborda a questão relacional na prática médica há o impasse este ou aquele médico tem “jeito” com os pacientes, tem paciência, é “humano”, gosta de conversar... enfim é diferente da maioria...
Será que a qualidade do atendimento não estaria diretamente relacionada a estes aspectos relacionais ?
E ainda qual seria a relação destes aspectos com a qualidade do atendimento médico ?
Muitas vezes quando o objetivo é melhorar a qualidade do atendimento propõem-se mudanças na estrutura e mesmo da proposta de modelo de assistência com a expectativa de modificar a postura individual do médico frente ao paciente. Entretanto sabe-se na prática que não são suficientes.
Reconhece-se que existem muitos fatores que influenciam a qualidade do atendimento médico – políticos, sociais, e da estrutura do sistema de saúde – e por conta disso propostas de intervenção que interfiram na relação do profissional com o seu paciente são sempre relegadas a segundo plano.
As “condições de trabalho” na maioria das vezes inadequadas ocupam toda a energia e indignação nas discussões do processo de trabalho, não se conseguindo nunca coloca em pauta as questões relacionais. Tudo isso como se as mesmas, embora influenciadas pelas “condições de trabalho”, não pudessem ser também analisadas como uma questão técnico-profissional.
Os próprios médicos consideram a relação-médico paciente como aspectos estritamente opcionais e pessoais. Não há ênfase suficiente durante a formação e não há cobrança destes mesmos aspectos pelas chefias na vida profissional.
Dada esta perspectiva acredito que a saída para o impasse esteja na possibilidade de trabalhar as equipes médicas segundo uma metodologia que auxilie o médico no seu dia-a-dia ao mesmo tempo que o subsidie na compreensão dos fenômenos da relação médico-paciente.
Essa metodologia foi proposta por Michael Balint nos anos 50 para auxiliar os médicos clínicos em suas dificuldades diárias com supervisão e discussão de casos.
Balint dá um enorme valor à intervenção do médico, insistindo sobre a natureza da “aliança terapêutica”, sobre a influencia do terapeuta na relação médico-paciente para a manutenção de tal aliança, pois entende que o conhecimento dos efeitos dessa aliança pode produzir respostas terapêuticas e mudanças no comportamento do paciente.
O autor em seu livro “O médico, o paciente e a doença” assinala logo no início que a droga mais frequentemente utilizada na clínica geral é o próprio médico e que mais importante que o frasco de remédio era o modo como o médico o oferecia ao paciente, ou seja, a atmosfera na qual a substancia era administrada e recebida.
No processo proposto por ele a primeira fase consiste em demonstrar a importância do “escutar” como uma forma diferente da maneira tradicional de colheita da anamnese médica, seguido de fases referentes ao “compreender” e ao “uso da compreensão de forma que ela tenha um efeito terapêutico”.
O médico ao discutir suas atitudes possibilita o desenvolvimento de uma compreensão de si mesmo como objeto de relação, ou seja, passa a perceber nuances de sua influencia na relação terapêutica .
Muitos autores referem-se à importância dos aspectos estudados por Balint não só do ponto de vista teórico mas pela possibilidade desse conhecimento resultar numa melhor prática clínica, sugerindo encontros para estudo e discussão, mudanças no ensino médico ou a própria adoção de “grupos Balint” pela possibilidade de recuperação da visão integral do paciente, levando à melhora da qualidade de atendimento.
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