Inúmeros estudos acerca da dinâmica da violência conjugal têm constatado que testemunhar violência entre os pais ou ser vítima de violência quando criança são fatores que podem levar a pessoa a se envolver em situações de violência na vida conjugal adulta ou adolescente, seja como vítima, seja como agressor. O que se constata é que, com freqüência, a violência nas relações familiares e conjugais se reproduz de uma geração a outra, criando cadeias familiares de violência que se repetem entre as gerações como se respondessem a um destino inexorável. O que poderia explicar que um fenômeno tão sofrido e humilhante seja passado de pai para filho ou de mãe para filha e assim sucessivamente? Por que uma filha que viu sua mãe ser agredia pelo pai na sua infância, e repudiou intensamente esta cena, acaba, com freqüência, se envolvendo com parceiros violentos?
Alguns teóricos da psicanálise (Kaes, 2001; Granjon, 2000; Benghozi, 2000; Faimberg; 2001; Gomes; 2005) entendem que o sujeito é inscrito em uma ‘cadeia’ familiar da qual ele é o ‘elo’ e à qual se submete, estruturando-se e se desenvolvendo em relação àquilo que se constitui herdeiro e que lhe é transmitido pelo grupo a que pertence.
Uma primeira aproximação do tema da transmissão psíquica entre gerações de uma mesma família requer que se esclareça a noção do que se entende por família. Granjon (2000) define o grupo familiar como um grupo primário, com um tipo de organização particular em torno dos laços de aliança, de filiação e de fraternidade e que possui a função e finalidade de se perpetuar. Longe de ser uma soma de indivíduos, a família é um espaço psíquico complexo composto pelas instâncias psíquicas de cada um, mobilizadas pelas relações inter e transubjetivas. Fala-se em espaço psíquico familiar, no qual a existência de cada um está fundada no lugar oferecido e ocupado na cadeia das gerações, na relação com aqueles que o precederam e que não mais existem.
Uma das questões centrais do processo de transmissão psíquica, que pode levar a importantes disfunções no aparelho psíquico familiar é o modo como esta transmissão se dá, isto é, se a transmissão é ‘intergeracional’ ou se é ‘transgeracional’. A primeira modalidade de transmissão implica que as ligações com e entre diferentes níveis intrapsíquicos e intersubjetivos sejam intermediadas pelo grupo, pelos agenciamentos e pelas aparelhagens das formações psíquicas mobilizadas, favorecendo transformações do material transmitido e conduzindo a uma diferenciação, uma evolução entre o que é transmitido e o que é herdado. Já a transmissão transgeracional ocorre se o processo de transmissão não for intermediado pelo grupo, mas transmitido sem distanciamento, sem laços, sem transformações, atravessando as gerações e se impondo em estado bruto aos descentes. (Granjon, 2000; Benghozi,2000).
Esta última modalidade de transmissão ocorre quando o que é transmitido não pode ser metabolizado ou elaborado pelos sujeitos que transmitem e pelos que recebem a herança. É o caso dos eventos traumáticos, das mortes, dos delitos e dos eventos que carregam uma carga excessiva de culpa e vergonha, que são transmitidos junto com os mecanismos de defesa e interditos que eles suscitam para evitar que sejam conhecidos, sabidos ou ditos. Como diria Granjon, o que é transmitido transgeracionalmente são “acontecimentos que irromperam, em um dado momento da historia, por destruição das pára-excitações psíquicas individuais e grupais, fazendo fracassar as formações e os processos capazes de metabolizá-los, de torná-los pensáveis, de integrá-los em uma psique e em uma história”(Granjon, 2000).
Dentro deste quadro teórico, entendemos que a violência que ocorre no interior da família é, muitas vezes, vivida como evento traumático, que se inscreve na cadeia de transmissão do continente genealógico familiar como experiência indizível e inconfessável. Muitas vezes o pacto de silêncio estabelecido entre crianças abusadas sexualmente por familiares e o abusador faz com que o silêncio seja transmitido entre gerações, levando à reprodução da violência sexual nas gerações seguintes. A dor, a crueldade e a vergonha vividas pelas crianças que assistem a violência doméstica entre seus pais também são experiências muitas vezes impossíveis de serem metabolizadas e acabam por serem transmitidas em sua forma bruta para as outras gerações. Como nos mostra Benghozi “A gestão da herança traumática da vergonha está diante de um impasse. O risco constante, quando há um traumatismo psíquico não metabolizado, é a repetição da cena da violência, mesmo depois de várias gerações. A vítima se torna carrasco. Ele é encontrado nas terapias de família com relações incestuosas e com violência intrafamiliar” (Benghozi, 2000:97)
Para a interrupção da repetição da violência e a prevenção de transmissões transgeracionais, a psicanálise propõe intervenções clínicas familiares que, através da sustentação terapêutica, ajudem a reconstruir os continentes genealógicos familiares, garantindo uma condição de reestruturação do sujeito na cadeia. Por sustentação terapêutica entende-se a construção de uma posição continente do terapeuta que reconhece o caráter efetivo do trauma e garante a co-construção narrativa do afresco familiar genealógico e a confrontação e reatualização de fantasias inconscientes (Benghozi, 2000).
Referências bibliográficas
BENGHOZI, P. Traumatismos precoces da criança e transmissão genealógica em situações de crises e catástrofes humanitárias. Em Correa, O. (Org) Os avatares da transmissão psíquica geracional. SP: Escuta, 2000, pp 89-100.
GRANJON, E. A elaboração do tempo genealógico no Espaço do tratamento da terapia familiar psicanalítica. Em Correa, O. (Org) Os avatares da transmissão psíquica geracional. SP: Escuta, 2000, pp 17-44.
*É proibida a reprodução do texto publicado nesta página, no todo ou em parte, sem autorização escrita da autora, sujeito às penalidades previstas na Lei 9.610/98 de direitos autorais.

veja a localização