A necessidade de elaborar a escuta clínica dos adolescentes se faz urgente na medida em que estes apresentam um abalo na sua condição de sujeitos.
Aquilo que ancorava o sujeito na sua infância sofre uma radical mudança que pode ser atribuída a vários fatores, dos quais destacam-se a revisão das escoras narcísicas e a necessidade de se apropriar de uma escolha sexual.
A condição de moratória do adolescente emerge. Não sendo mais criança e ainda não sendo adulto, encontra dificuldades no modo de se posicionar no social.
A incidência de patologias graves neste período da vida e a plasticidade de suas manifestações sintomáticas ressaltam a necessidade do analista de fazer frente á clínica da adolescência.
Diante desta “mania” incessante de se diagnosticar preenchendo critérios e abolindo os sujeitos, vemos os adolescentes portando diagnósticos que não levam em conta sua condição.
UM ENCONTRO COM A TEORIA:
"..Mas que espelho? Há os bons e os maus, os que favorecem e os que detraem; e os que são apenas honestos, pois não. E onde situar o nível e o ponto desta honestidade ou fidedignidade? Como é que o Sr, eu, os restantes próximos somos no visível?"[I](Guimarães Rosa)
Em 1915 quando escreve “Luto e melancolia” Freud novamente esvanece as fronteiras entre o normal e o patológico quando compara a melancolia ao afeto normal do luto. Descreve um quadro semelhante tanto para o luto como para a melancolia ressaltando uma diferença crucial: não haveria no luto a auto-recriminação e as injúrias tão próprias do melancólico. Para Freud, na melancolia haveria uma perda que se situa no inconsciente ao passo que no luto nada diria respeito ao inconsciente. O melancólico sabe que perdeu, mas não sabe o que. Conclui que na melancolia é o próprio ego que fica triste, diferentemente do luto, que faz do mundo um lugar triste.
O empobrecimento egóico do melancólico é decorrente da introjeção de uma perda no próprio ego. Neste texto, Freud dedica poucas linhas a respeito da mania, mas coloca algo central: mania e melancolia são faces da mesma moeda, ou seja, falam do mesmo complexo. O conteúdo de um em nada difere do outro. Na melancolia o ego sucumbe, ao passo que na mania há um triunfo do mesmo eu.
No capítulo sobre a Identificação da “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, Freud (1921) nos chama a atenção para o fato de que no processo de escolha de objeto de amor haveria naturalmente uma retroação do objeto a uma identificação, fazendo com que o Ego assuma as características do objeto amado. A identificação para Freud é a forma original do laço emocional com os objetos.
Mais adiante, revela algo de crucial importância para o entendimento da melancolia: a divisão do ego em duas partes e a briga que se instaura entre estas duas instâncias.
Em “O Ego e o ID” (1923) Freud coloca que a divisão que ocorre no ego dá origem ao superego. A formação do superego aumenta as exigências do eu criando assim uma tensão. Tensão esta que é realimentada pelo próprio mandato do supereu, exemplificado por sua dupla condição: “Seja assim como o pai” e concomitantemente “não podes ser assim, pois existem prerrogativas que não lhe cabem”.
Voltando a atenção à melancolia, Freud atesta que a ferocidade do superego é a pura cultura da pulsão de morte. A mania seria, para Freud, uma defesa que o Ego encontra para não sucumbir à ferocidade do Superego.
Já em “Neurose e Psicose”, Freud (1924) situa a melancolia como neurose narcísica aproximando-a das psicoses.
Tanto a neurose como a psicose, teriam seu desencadeamento determinado por alguma frustração, geralmente externa. Entretanto, afirma que em alguns casos esta frustração pode surgir a partir de alguma frustração interna como o superego tal como nos é revelado pela melancolia. Fruto deste embate entre o Ego e o Superego a melancolia nos é revelada por Freud e o estatuto do Superego ganha uma relevância clínica importantíssima para ser levada em conta em qualquer patologia.
Lacan (1945) também ira se debruçar sobre a questão do Ego e da constituição do sujeito trazendo inúmeras contribuições. No “Estádio do Espelho” chama a atenção para a extrema prematuridade do humano e sua dependência absoluta ao outro para se constituir.
A criança, inábil em seus movimentos, recebe através do olhar e da voz da mãe um nome ao seu corpo e a si mesma. É na assunção jubilatória diante do espelho que a criança vê a gestalt de seu corpo e nesse jogo identificatório se cria uma confusão do eu com esta imagem que a forma, daí o caráter de engano atribuído ao eu.
Seguindo a trilha aberta por Freud, Lacan trabalha no Seminário 7 a questão da Coisa, das Ding. Tal como Freud, Lacan aborda a Coisa como algo isolado no exterior e totalmente estranho ao sujeito. A das Ding seria algo primordial e para sempre perdido, que deixa um furo, um buraco no psiquismo. No processo de constituição do sujeito algo ficaria de fora. Considerado por Lacan como sua única invenção no interior da teoria psicanalítica, e conceito elaborado em uma parte extensa de sua obra, o [I]objeto a, causa do desejo, seria o único objeto capaz de se inscrever neste buraco do psiquismo. Objeto que se inscreve como pura falta, caído e acessível apenas mediante o simbólico.
O objeto a é causa na medida em que é ele que põe em movimento o simbólico, sendo assim o verdadeiro motor da estrutura do desejo e é resto na medida em que sendo do real aparece como impossível, inapreensível.
No seminário sobre “A Angústia” (1962) Lacan novamente atribui um resto, próprio ao momento do processo especular e, portanto, concomitante á formação do Eu. Lacan chama de i(a) este resto que pode ou não ser incorporado ao estádio do espelho:"É a isso que responde o verdadeiro sentido, o sentido mais profundo ao dar ao termo auto-erotismo, é que a gente sente falta de si".(p.127)
A regulação do imaginário e do real depende do simbólico. É o Outro da linguagem o único capaz de dizer do real: "Essa falta que o símbolo, de algum modo, preenche facilmente, designa o lugar, designa a ausência, presentifica o que não está aí" (p.142).
A castração, outro nome dado ao real é da ordem do simbólico e o desejo, seu correlato. O desejo, busca a nomeação do vazio do real, procurando e procurando um objeto. Esse movimento do desejo só pode existir pela via da objeção, objeção que possibilita que o movimento não cesse.
O objeto a, como já foi dito anteriormente, apresenta duas dimensões: a de resto e a dimensão de objeto precioso, já que é ele o responsável por engendrar o simbólico. Esta dupla vertente parece ser valiosa para se pensar com relação à melancolia/mania. Não estaria o melancólico ora em posição de resto decaído (melancolia) ora em posição de causa (do bom e do bem) na mania?
O sujeito em posição de objeto nos fala da psicose tal como Lacan elucida em “Duas Notas sobre a criança” já que a posição de objeto sutura a falta do Outro, a completa de maneira à “zerificar” a falta, diferentemente da neurose quando o sujeito constitui um sintoma como uma resposta a uma falta no Outro.
Se a melancolia e o luto nos remetem a esse rico campo da constituição do eu, da imagem corporal, a adolescência é o momento exemplar de revisão e apropriação da constituição inicial do sujeito. O Eu troca literalmente de pele. É ainda neste momento que o jovem faz aquilo que Freud (1908) chamou como um dos mais árduos, porém necessários processos do homem: o deslocamento da autoridade dos pais.
A renúncia à imagem corporal sustentada durante toda a infância coloca o adolescente num horizonte novo e cheio de angústia. A montagem que foi arrumada é bagunçada e “o alicerce especular deixa aparecer suas fraquezas” (Rassial. p, 49).
Há, portanto, nesse momento da vida um novo conflito que surge do eu com seus ideais, com a agravante de que o adolescente deve agora, convocado pela irrupção do real do corpo, a se posicionar na partilha dos sexos. Tarefa árdua, na qual o adolescente “deixa de ser o salaminho da mamãe para ter que lidar com o seu” (Berlinck, 2000). Esta passagem do ser para o ter convoca o adolescente a um novo luto, a uma nova perda, uma renúncia ao sexo que não se tem: “Toda sexuação efetiva implica, com efeito, uma certa renúncia ao sexo que não se tem; e como não existe apesar de tudo, ao nosso conhecimento, outro sujeito a não ser o humano - e, portanto, sexuado, a diferenciação pubertária vem dar partida nesta experiência exemplar pela qual o sujeito de uma tal incompletude vai se achar intimado a existir” (Penot,p.33)
O melancólico e o adolescente afirmam o não senso inerente à vida. Prestam uma queixa denunciando o “mal estar” com os outros, com seus corpos fadados ao fracasso e com as catástrofes as quais são submetidos. Destroem assim a falsa segurança da identidade denunciando a natureza ilusória do eu e dos laços já estabelecidos.
Diferente do melancólico, o adolescente se mexe, procura, investe fálicamente em novas coisas, vira pintor, roqueiro ou artista, ao passo que o melancólico é um enlutado da libido.
O adolescente se movimenta em busca de que algo nomeie seu desejo, já o melancólico só pode dizer: nada vale a pena por que a alma é bem pequena. Aonde na passagem adolescente há movimento desejante, na melancolia o sujeito se posiciona numa mortificação paralisante.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BERLINCK, M. Psicopatologia Fundamental. São Paulo: Editora Escuta, 2000.
FREUD, S. Romances Familiares. In ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1987. Vol IX.
_______.Luto e Melancolia. In ESB. Rio de Janeiro: Imago,1996. Vol XIV.
_______.Psicologia de Grupo e a Análise do Ego.In ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1969.Vol XVIII.
_______. O Ego e o ID. IN ESB. Rio de Janeiro:Imago, 1969. Vol XIX
_______. Neurose e Psicose. In ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1969. Vol XIX. LACAN, J. O Seminário. Livro 7. A Ética da Psicanálise. Rio de Janeiro : Jorge Zahar, 1988.
_______. A Angustia. Publicação Interna do Centro de Estudos Freudianos. Recife,2002.
________. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
________. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
PENOT, B. A importância da noção de adolescência para uma concepção psicanalítica de sujeito. In: Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, ano V, 1995.
RASSIAL, J. O Adolescente e o Psicanalista. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1999.
ROSA, G. Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.
*É proibida a reprodução do texto publicado nesta página, no todo ou em parte, sem autorização escrita da autora, sujeito às penalidades previstas na Lei 9.610/98 de direitos autorais.

veja a localização