“Além do Princípio de Prazer" (1920) – Resenha

 

Artigo no qual Freud desenvolve a noção de pulsão de morte e compulsão à repetição.

Neste trabalho, o autor privilegia a descrição metapsicológica da mente onde, além do ponto de vista dinâmico e topográfico, apresenta uma visão econômica do funcionamento do aparelho psíquico. Freud analisa o princípio de prazer do ponto de vista econômico, correlacionado-o ao princípio de constância, cuja função é de manutenção da quantidade de energia a mais baixa possível - o prazer corresponderia a uma diminuição da quantidade de excitação (já o desprazer, a um aumento).

"A tendência dominante da vida mental e, talvez, da vida nervosa em geral, é o esforço para reduzir, para manter constante ou para remover a tensão interna devida aos estímulos (o ‘Princípio de Nirvana’)” (p. 66).

A partir da observação das brincadeiras de seu neto, dos sonhos das neuroses traumáticas e das transferências na análise (onde os pacientes repetiam na transferência os acontecimentos traumáticos da infância), Freud passa a questionar o papel desempenhado pelo princípio de prazer. Nestas situações nota a presença de uma compulsão à repetição de cenas que não representam prazer e que indicam que o princípio de prazer não rege todo o funcionamento mental: “Existe realmente na mente uma compulsão à repetição que sobrepuja o princípio de prazer” (p.33).

Observando seu neto (um ano e meio de idade), percebe que este brinca com um carretel, fazendo com que desapareça e apareça. Ele analisa este jogo como uma simbolização da falta materna, em que a criança encenava a alternância entre ausência e presença da mãe. O jogo era acompanhado das verbalizações Fort (ir embora), quando o objeto se afastava e Da (ali), quando o mesmo aparecia.

Uma das coisas que chamou a atenção de Freud, diante do jogo, foi o ato da partida do objeto ser encenado com muito mais freqüência do que o episódio do retorno, que seria, supostamente, mais prazeroso. O autor também analisa que o jogo mudaria a criança de posição: de um lugar passivo, passaria a ativo. "Quando a criança passa da passividade da experiência para a atividade do jogo, transfere a experiência desagradável para um de seus companheiros da brincadeira e, dessa maneira, vinga-se num substituto”(p.28).

Ao se deparar com os sonhos repetitivos de pacientes com neuroses traumáticas (e de guerras), Freud passa a questionar sua teoria dos sonhos, pela qual afirmava que todos os sonhos seriam uma realização de desejo. Ele analisa a função desses sonhos, que repetem cenas traumáticas, como dolorosas. Para ele, tais sonhos teriam a função de desenvolver a angústia retroativamente, onde esta faltou.

É interessante que Freud enfatiza a importância da hipercatexia na proteção de um distúrbio. Exemplifica, então, que a hipercatexia pode ocorrer por meio da angústia e até mesmo de uma doença física:

 “Distúrbios graves na distribuição da libido como a melancolia, são, temporariamente interrompidos por uma moléstia orgânica intercorrente, e, na verdade, que mesmo uma condição plenamente desenvolvida de demência precoce é capaz de remissão temporária nessas mesmas circunstâncias” (p.43).

Freud retoma seu texto “Recordar, repetir e elaborar”(1914), no qual sinaliza que aquilo que não pode ser recordado é repetido. Analisando a resistência, infere que esta provém do ego e não do inconsciente, uma vez que o reprimido não oferece resistência. Ao contrário, luta por manifestar-se por meio da repetição. O autor afirma que a repetição seria antagônica ao princípio de prazer enquanto que a resistência estaria a serviço deste princípio (tenta evitar a emergência do material reprimido que levaria ao desprazer). Assim, o ego, respondendo ao processo secundário, impede a rememoração do material reprimido, que só encontra saída na repetição.

Com relação ao trauma e sua origem, Freud faz uma longa explicação no texto “Projeto para uma psicologia científica”(1895). Descreve uma função de proteção do aparelho psíquico, que só existiria quando os estímulos vêm do exterior: “A proteção contra os estímulos é, para os organismos vivos, uma função quase mais importante do que a recepção deles” (p.38). Assim, como no interior do aparelho psíquico não haveria um escudo protetor para se defender das excitações internas que provocariam desprazer (por seu aumento de energia), o aparelho psíquico se utilizaria da projeção como mecanismo de defesa, tratando tais excitações como se fossem oriundas do exterior. Em função desta particularidade dos estímulos internos, estes teriam uma maior importância econômica na causa dos distúrbios psíquicos. Um trauma, portanto, seria decorrente de um fracasso do escudo protetor, em que uma excitação intensa atravessaria a barreira.

Freud infere que a angústia teria como função fortalecer a barreira de proteção por meio de uma hipercatexia dos sistemas, que teriam, por isso, maiores condições de suportar uma grande carga de energia. Ao falar das pulsões, afirma que estas sempre buscam a satisfação (a repetição de uma primeira experiência de satisfação), no entanto, como tal satisfação completa nunca é alcançada (o grau de obtenção de prazer é sempre menor que o desejado), a tensão persiste, pressionando constantemente em busca de uma realização impossível.

A partir desse trabalho, Freud amplia a noção de pulsão ao constatar que a compulsão à repetição seria uma característica intrínseca ao movimento de toda pulsão, conseqüente da tendência ao restabelecimento de um estado anterior da vida, inorgânico. O auto afirma que:

“Uma pulsão é um impulso inerente à vida orgânica, a restaurar um estado anterior de coisas, impulso que a entidade viva foi obrigada a abandonar sob a pressão de forças perturbadoras externas, ou seja, é uma espécie de elasticidade orgânica, ou para dizê-lo de outro modo, a expressão da inércia inerente à vida orgânica” (p. 47).

A partir daí, Freud verifica a existência da pulsão de morte. Surge então, uma nova concepção de pulsão e, com ela, uma nova teoria. As pulsões de vida e de morte (não mais ego x sexuais) passam a dirigir o funcionamento psíquico. Ele evidencia que as pulsões de morte se opõem às pulsões de vida. As primeiras exercem pressão no sentido da morte, da volta a um estado inorgânico e as últimas no sentido de um prolongamento da vida, numa tendência à formação de unidades maiores.

Freud relata, então, que a vida tem uma natureza conservadora “não conhece exceção o fato de tudo o que vive morrer por razões internas, tornar-se mais uma vez inorgânico, seremos então compelidos a dizer que o ‘objetivo de toda vida é a morte’.” (p.49).

Bibliografia:

Freud, S.(1920) Além do Princípio de Prazer. In: Obras psicológicas completas: Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


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