Quando Freud falava de sintoma, geralmente se referia ao sintoma histérico. Este, por excelência, foi o que causou enigma em Freud e que fez surgir o próprio discurso psicanalítico.

A parir de um deslocamento, do que era dado-a-ver na manifestação histérica, Freud põe em causa a escuta e a histérica passa a ser quem produz o mestre, ou seja, ela faz com que se produza um saber acerca de seu enigma.

E diante de tantos enigmas, Freud se depara com a questão do desejo insatisfeito da histérica.

O desejo, na histeria, é um desejo de insatisfação. Para a histérica, a insatisfação é o que garante que haja desejo. Freud caminhava na direção de provar que o sonho era uma realização de desejo. Novamente é convocado a produzir um novo saber quando se depara, através da análise de um sonho de uma paciente histérica, com o desejo insatisfeito.

Trata-se do sonho da Bela Açougueira. Ela queria oferecer um jantar, mas em sua casa só havia salmão. A mulher do açougueiro não conseguiria uma outra coisa a comprar, pois era domingo e tudo estava fechado. Assim, ela teve que renunciar ao seu desejo de dar uma reunião. Nas associações subseqüentes ao relato do sonho, a mulher do açougueiro revela que seu marido era muito gordo e que ele havia decidido que não aceitaria mais convites para jantar. Revela também que havia pedido que seu marido não lhe desse caviar. É neste ponto que Freud se indaga: Qual é a necessidade que a paciente tinha de ter um desejo insatisfeito?

E aí, Freud insiste em mais associações. A paciente lhe revela que havia uma amiga que sempre lhe causava ciúme, já que seu marido a elogiava constantemente. Esta amiga era muito magra e queria engordar e ela havia, recentemente perguntado acerca dos jantares oferecidos na casa da Bela Açougueira. O marido da paciente preferia mulheres “gordinhas!” E assim Freud chega a conclusão que a Bela Açogueira não queria engordar sua amiga para que assim ela não se tornasse mais interessante aos olhos de seu marido.

A histérica encarna a fórmula, desenvolvida por Lacan do desejo ser o desejo do Outro. A histérica deseja por procuração. A tão falada homossexualidade na histeria pode ser uma decorrência do fato da histérica supor á outra mulher como capaz de responder á sua pergunta sobre a feminilidade.

Na histeria há uma pergunta constante do que é ser homem ou mulher. O sexo feminino, que porta um órgão irrepresentável é misterioso para ambos os sexos. “A questão do histérico macho concerne também à posição feminina”, nos diz Lacan no Seminário III.

Deste modo, a histérica assume uma grande variedade de papéis que ela desempenha para solucionar o enigma de sua feminilidade. Nesse sentido, podemos dizer que a histérica porta um saber analítico, geralmente alcançado no fim de uma analise: a inexistência do objeto. E assim a histérica pula, de um objeto ao outro dizendo: não respondeu, não satisfez. Ainda que a histérica não consinta, ela porta o saber de que algo não dá conta por que há o Real, não o da realidade, mas do impossível, aquele que não cessa de não se inscrever e que faz marca assim como o mar constantemente marca o litoral, insiste na areia. A histérica insiste na falta e o analista, numa posição feminina no vazio, no Real.

O analista produz, opera uma histericização do discurso. É uma introdução artificial do discurso da histérica como operador fundamental da entrada em análise. Nesse sentido, a análise reproduz a doença que se pretende tratar. É uma histeria artificial que analista e analisante se propõem a resolver em conjunto ainda que o analista, em posição de objeto causa de desejo, tome o impossível como causa e não a falta.


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