Freud ao longo de sua obra constata que a percepção da diferença anatômica dos órgãos não implica que a diferença sexual esteja dada a nível do inconsciente.
Lacan afirma que o sexo se determina a partir da relação do sujeito com a castração e como não há significante do sexo feminino (todo significante é fálico), a feminilidade não pode ser concebida como algo que já existe a priori, desde o início, mas sim como um se tornar, um vir-a-ser.
Para o autor o sexo feminino se manifesta como um furo no discurso, como lacuna no significante, diz respeito, portanto, a um inominável. Nesse sentido, a mulher sempre tem uma parte dela mesma que não responde à função do falo. “A divisão do sujeito face ao sexual não é uma divisão entre dois sexos, mas entre dois gozos, um todo-fálico, outro não-todo, o primeiro fazendo surgir o outro como seu mais-além”.
A neurose é uma maneira do sujeito negar a falta. Na neurose ocorre o recalque, onde o neurótico procura objetos que visam preencher a falta no Campo do Outro, embora isto efetivamente nunca ocorra.
A metáfora paterna opera um recalque do significante primeiro do desejo da mãe (S1), que dá lugar ao significante do Nome-do-Pai. É este recalque primário que funda e movimenta toda a cadeia simbólica da criança, onde o significante primeiro fica inacessível (para sempre perdido), sendo substituído por outros significantes.
A histérica assim, tem uma falha no recalque do falo como significante. Ela recalca S1, mas não reconhece o S2 que dá significação ao falo, se colocando como portadora de uma enfermidade.
A histérica se interroga a respeito de seu desejo e se dirige ao Outro esperando uma resposta. Mas seu desejo é um desejo de ter um desejo e para que se conserve como desejo jamais pode ser satisfeito.
A histérica, através dos seus sintomas e fantasias, dá testemunho da falta de inscrição da feminilidade no inconsciente. Podemos dizer que a histeria é uma maneira de colocar a problemática da feminilidade. “Sua demanda, antes de se reduzir à demanda do falo, vale fundamentalmente como uma demanda de ´mais que falo ´”
É aí que o pai da histérica é estruturalmente impotente: seu falo não é suficiente para assentar sua identidade feminina, já que não há nele um significante do sexo feminino. Podemos notar isso tanto no caso Elizabeth como no de Dora, onde a figura paterna aparece como alguém que perdeu sua potência fálica.
Frente à falta de um significante feminino, a mulher não encontra um apoio para uma identificação feminina, ela então, se faz fálica para abordar a sexualidade como um homem. O narcisismo, a valorização de sua imagem corpórea tenta suprir a falta que seu órgão sexual representa, de tal modo que seu corpo chega a adquirir o valor de falo. É o que Lacan chama de mascarada, onde a mulher se disfarça de falo e se crê dando para isso a resposta do que é ser mulher.
“É para ser o falo, quer dizer, o significante do desejo do Outro, que a mulher vai rejeitar uma parte essencial da feminilidade, principalmente todos seus atributos, na mascarada.”
A mulher só pode apreender a feminilidade pelo viés de um semblante: “Uma mulher, assim, é levada a reconhecer que é pelo que ela não é que quer ser desejada, ao mesmo tempo que amada”.
A homossexuação de sua vida amorosa também aparece como uma tentativa de obter um signo que a funde numa feminilidade (a nível imaginário). Podemos entender a homossexuação como a adoção da posição de um homem com o intuito de apreender a medida do desejo que este pode ter em relação a uma mulher: é uma inversão identificatória, um sintoma, uma báscula para responder à pergunta ´O que sou?´.
É o que observamos no caso Dora, onde para responder à pergunta ´O que é ser mulher´, ela se identifica à Sra K, a supervalorizando como signo de feminilidade. Seus sintomas histéricos se referem, nesse sentido, ao papel do Outro enquanto Outro sexo: “Durante todos os anos anteriores ela fizera o possível para favorecer as relações do pai com a Sra K”.
Na histeria encontramos a repulsa e a conversão. A repulsa ocorre quando a função erótica é rebaixada ao nível da necessidade orgânica. Já na conversão, ao contrário, há uma hipererotização do corpo como uma resposta à repulsa.
No fenômeno da conversão, onde a representação é separada do afeto que a acompanha, de tal modo que ela se torna fraca e o afeto se desloca e vai para uma inervação somática (corpo). O significante se insere no imaginário do corpo a fim de reparar o real do corpo dessexualizado. "Mas era irrecusável que sua tosse espasmódica representava uma cena de satisfação sexual per os entre duas pessoas cuja ligação amorosa a ocupava tão incessantemente.”
A histérica assume duas identificações, uma imaginária com uma mulher e uma simbólica com o pai. No caso Elizabeth, percebemos que sua relação com o pai é bastante complexa, onde ela não se encontra numa posição de pura passividade frente à ele. Por um lado temos uma relação de amigo e confidente, por outro, a de enfermeira.
Como amigo, ela aparece identificada ao masculino, como seu pai a considerava: um filho provido de tudo que é necessário. Como enfermeira ela tenta reparar o Outro e se remete inteiramente às demandas deste Outro (forma de manter a aliança fálica imaginária: “Eu tenho tudo para te dar”).
Nesta posição fálica ela se afasta de sua feminilidade ao querer satisfazer a demanda do Outro (quando o pai morre passa a cuidar de sua mãe). No entanto, com o casamento de sua irmã, ocorre uma queda da sua posição fálica e uma saída para a feminilidade: a imagem de casamento ideal que vê na relação de sua irmã com seu marido faz com que comece a desejar ter um homem como aquele (desejo de ser amada pelo seu pai como a irmã é amada pelo cunhado).
O que ocorre é, portanto, uma identificação ao desejo do cunhado. Nesse sentido, a irmã da paciente tem a função de responder à questão do que é ser mulher. A morte de sua irmã deixa Elizabeth privada de sua referência feminina e também ameaça a insatisfação de seu desejo (“O cunhado está livre”).
No caso Dora encontramos os mesmos mecanismos. Dora protege a relação de seu pai com a Sra K, já que o desejo dele para com esta senhora coloca a Sra K como um representante do mistério de sua própria feminilidade. (“Ser mulher é ter este adorável corpo alvo como a Sra K”).
É interessante a cena em que ela esbofeteia o Sr. K no momento em que ele diz que sua mulher não é nada para ele. Vemos aí que ela sente-se ameaçada de perder sua referência feminina e a isto reage com fúria. Nesse sentido, o Sr. K só teria valor enquanto desejando a Sra. K.
Sua mãe, frágil, falha ao lhe dar os traços do que é uma mulher, então ela busca via olhar do pai. Dessa forma, não tendo resposta no simbólico para a questão O que é ser uma mulher, Dora vai em busca da mulher que é olhada por um homem. Ela busca o olhar masculino, que vai lhe mostrar o objeto de desejo de um homem.
Bibliografia
Freud, S. Obras psicológicas completas da ed Standard Brasileira. Fragmentos da análise de um caso de histeria. RJ: Imago Editora, 1980.
André, S. O que quer uma mulher. RJ: Jorge Zahar Editor, 1987.
Lacan, J. O seminário, livro 5: as formações do inconsciente. RJ: Jorge Zahar Editor, 1999.
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