"Qualquer coisa de obscuro permanece
No centro de meu ser . Se me conheço
É até onde, por fim mal, tropeço
No que de mim em mim de si esquece".
(Fernando Pessoa)
A psicanálise inaugura um novo campo: o campo do inconsciente. A partir da escuta das histéricas, Freud nos faz ouvir aquilo que está além do dito. Lacan, a partir de sua releitura da obra freudiana coloca que o inconsciente está estruturado como uma linguagem.Um sujeito do desejo, para a psicanálise está situado na linguagem, linguagem esta que preexiste ao sujeito.
Os conceitos de alienação e separação, elaborados no seminário XI são bastante interessantes para se pensar algo da dimensão do que é um sujeito para a psicanálise e também do que se espera de uma análise.
No processo de constituição do sujeito, há um “embate” entre a criança e o Outro. Os pesos são muito desiguais. A criança, ao se assujeitar ao Outro ganha algo, ela se torna um ser da linguagem. Freud fala de uma posição ativa, de uma escolha ou eleição da neurose. Nesse sentido, podemos entender que há uma posição ativa da criança em escolher a sujeição á linguagem.
Lacan usa o termo vel para falar de uma escolha exclusiva entre duas partes. Ele usa o exemplo da ameaça do assaltante: "A bolsa ou a vida" Se não der a bolsa, ficará sem vida. Ao dar a bolsa, perde-se algo. O embate, neste exemplo não é da ordem do prazer e da vida mas, para colocar-nos diante do fato de que a alienação é o passo primeiro a uma subjetivação e, concomitantemente a esta escolha, há um inevitável desaparecimento do ser, uma perda. É a chance do sujeito: alienar-se no Outro, escolhendo a força um significante mestre, identificando-se a ele e perdendo uma parte de seu ser.
Isso do lado do sujeito. Do lado do Outro também é patente a dimensão da falta. A inconsistência do Outro é revelada diante da questão: “Que queres ?” Tal questionamento dirigido pela criança ao Outro materno revela que a mãe não é completa, que algo também lhe falta. “São duas faltas que se recobrem”. O sujeito instala sua falta-a-ser naquele lugar onde o Outro estava faltando.
A dimensão desejante do sujeito está totalmente atrelada a falta. As perguntas intermináveis das crianças revelam a dimensão enigmática do desejo: O que sou para ela? O que ela quer de mim? Perguntas que não encontram respostas satisfatórias e que geram angustia.
A vida de um sujeito começa com um encontro com o desejo do Outro. E este encontro é um embate traumático com a alteridade.
A psicanálise inclui a perda, o sintoma, a angústia como próprio do humano e não tem a pretensão de extinguir, restaurar, arrumar esta dor. A aposta da psicanálise é nos deslocamentos, nos esvaziamentos de gozo e na possibilidade de reinvenção de um novo nome, um novo nome próprio.
Bibliografia:
Lacan, J. O Seminário. Livro XI- Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise.Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
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