A histeria enquanto diagnóstico clínico tem sido utilizada de maneira diversa, de acordo com o momento histórico e cultural.

O termo histeria existe há mais de dois mil anos. Acredita-se que Hipócrates foi o primeiro a usar este termo o associando às perturbações no útero. Aí temos uma marca que sempre acompanha a histeria: uma doença ligada ao feminino (mesmo que pudesse aparecer, eventualmente, no sexo masculino). Platão, por exemplo, atribuía a causa da histeria à problemas da ordem sexual (como insatisfação, ausência de filhos).

Com o apogeu do Cristianismo a histeria passou a ser tratada como uma expressão demoníaca e que, por isso, precisava ser combatida (feiticeiras e bruxas condenadas à morte na fogueira).

No século XVII a histeria passou a ser encarada novamente como doença e a ser medicalizada. Com o avanço da Medicina, este diagnóstico deixou de ser atribuído apenas à perturbações do útero, ampliando-se para o cérebro e o sistema nervoso.

"Mas, uma vez que a afecção deixava de ser vista como dependendo de um órgão exclusivamente feminino, passou ao mesmo tempo a ocupar o primeiro plano um discurso que associava os traços ao carácter histérico e a feminilidade." (BOROSSA, 2001, p.17)

O quadro clínico era composto por: sintomas físicos sem causa aparentemente orgânica, sedução, dissimulação, expressão exagerada das emoções e problemas sexuais.

Frente a uma sociedade patriarcal, a histérica passou a ser porta-voz da feminilidade enquanto algo obscuro e desconhecido.

"É interessante recordar que a articulação entre a insatisfação da mulher com o seu destino e a histeria foi claramente estabelecida por um discurso de finais do século XIX e começo do século XX "(BOROSSA, 2001, p.59)

Em 1870, Charcot, no hospital de Salpêtrière, investigava a histeria e tentava atribuir uma materialidade a ela a partir da utilização de diversos instrumentos. Segundo ele, a histeria era uma doença hereditária, do sistema nervoso e sua origem estava associada a um fator traumático. Além disso, a susceptibilidade à hipnose era característica da histeria. Charcot classificou vários sintomas, mas não escutou de fato as histéricas. (BOROSSA, 2001)

A dissimulação, o fingimento da histérica, sempre chamou a atenção dos estudiosos da histeria, sendo caracterizado como um dos principais sintomas que, muitas vezes, levava a uma condenação moral.

No século XIX, a partir dos estudos de Breuer e Freud, a histeria permitiu uma nova concepção de sujeito, como cindido, portador de conflitos e alienado de si próprio. Os sintomas da histeria passaram a ter sentido, a serem escutados como expressão de um conflito entre desejos, expressão de um trauma psíquico, cuja cura dependia da rememoração do trauma (“talking cure”). Ao longo da obra de Freud, a transferência e a fantasia passaram a ocupar o lugar central do tratamento da histeria.

Freud (1905[1901]) salientava a capacidade intelectual de suas pacientes e a frustração destas por não conseguirem exercer sua inteligência.

Em alguns momentos, a histérica foi vista como uma mulher que se conformava com as imposições sociais e em outros momentos, como alguém que se opunha a eles, que fazia uma reação importante frente às sociedades opressoras.

Parece haver nos casos relatados por diversos autores uma ambigüidade na posição da histérica: quer e rejeita a falicidade do patriarcado. “Por outras palavras, a histeria manifestava-se ao mesmo tempo como uma conseqüência patológica do patriarcado e como a sua subversão” (BOROSSA, 2001, p. 62).

Bibliografia
BOROSSA, J. (2001). A Histeria. Tradução por Miguel Serras Pereira. Porto: Almedina
FREUD, S (1905[1901]). Obras psicológicas completas da ed Standard Brasileira. Fragmentos da análise de um caso de histeria. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. VII.


*É proibida a reprodução do texto publicado nesta página, no todo ou em parte, sem autorização escrita da autora, sujeito às penalidades previstas na Lei 9.610/98 de direitos autorais.