Cem anos já se passaram desde que o Kasato Maru aportou em Santos. Há muitas histórias cujas origens remontam às antigas colônias, em sua maioria no interior de São Paulo.
Como descendente de japoneses, gostaria de compartilhar alguns fragmentos da história de meus parentes.
Recordo-me dos relatos do encontro de meus avós com a terra destemida – Burajiru (Brasil). Eles vieram pelo Santosu Maru, perderam um parente na viagem, chegaram bastante cansados pela náusea e pela tristeza. Um sonho marcado pela dor. Demorou para chegar. Foram quase dois meses de viagem.
Como chovia, a natureza era implacável. Para plantar eles cortavam árvores enormes da floresta tropical. Cortavam chorando, as mãos ficavam doendo e essa dor dizia muito, mas não desistiram, mesmo que no Japão não tivessem que fazer nada disso. Durante muitos dias ficavam tomados pela recordação das separações e da vida que levavam, da família, da escola, da mura (aldeia), da alimentação. Além da expectativa de retornar.
Os costumes eram diferentes, os proprietários não os tratavam bem. Pela dificuldade de expressão era difícil se comunicar. Não sei se é lenda, mas recordo-me de uma conversa em que minha avó queria comprar bacalhau e o vendedor não a entendia. Zangada, minha avó o chamou de bakayaro (tolo ou bobo). Para sua supresa, foi atendida imediatamente pois o vendedor interpretou a palavra bakayaro como bacalhau!
A paisagem também era diferente, havia animais, onça, tatu... Diziam que dava muito medo. As crianças escutavam os barulhos dos animais e, para ir ao banheiro, que ficava fora da casa, iam em duplas para apaziguar seus medos e era muito comum encontrar cobras e sapos no caminho. Certa vez, minha tia foi se calçar e ao colocar o pé foi mordida por uma aranha enorme. Meu avô levou-a ao médico que era longe, foi de charrete, ela quase morreu pela demora (pode até ser exagero). Uma vez tiveram que matar uma cobra enorme, que estava na plantação (algodão e café), acho que era sucuri.
O dia-a-dia escolar era misturado: havia o nihongakkou (escola japonesa) e muitos a freqüentavam para manter a língua materna. Para ir ao burajiru gakkou (escola brasileira), tinham que andar quilômetros a pé. Caminho que era muito valorizado por eles, contentes em estudar.
Chegando aqui, eles foram morar perto de um rio, onde pescavam e onde meus tios gostavam de nadar, resquícios de vivência junto ao mar, onde meu bisavô trabalhava com pequenos barcos de pesca da região litorânea do Japão.
Quando criança escutava eu essas histórias com muita emoção e admiração. Sentia que havia heróis na família que desbravavam florestas, matavam animais selvagens, enfrentavam seus medos. Pode ser fantasia de criança, mas sem dúvida conhecer a origem é muito importante, pois ela deixa suas marcas, mesmo que sejam marcas d’água, nem sempre perceptíveis, mas presentes.
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Matéria publicada por Vida Integral em 03/02/2008

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