A clínica psicanalítica não é descritiva, nem fenomenológica como a clínica da Psiquiatria clássica. É uma clínica estrutural, não é historicista, estabelece o diagnóstico na transferência, já que é nela que a estrutura do paciente se revela e o analista é incluído. É a partir do lugar em que é colocado pela fala do paciente, portanto, que o analista pode fazer um diagnóstico.
A estruturação do sujeito sempre é uma operação de defesa frente à Demanda imaginária do Outro, na tentativa de se diferenciar do real do corpo (a carne), não se perdendo como objeto do gozo do Outro.
Diante da Demanda imaginária do Outro, o sujeito constrói uma metáfora sobre ela, dando uma significação subjetiva, um saber. Esta operação é a mesma para qualquer sujeito, mas o que diferencia as estruturas (neurose, psicose, perversão) é o estatuto deste saber.
O saber, na neurose, passa pela hipótese de um sujeito suposto (“ao menos um” que saiba lidar com a demanda do Outro, delegado à função paterna). O saber passa por um ponto de “capiton” que é sempre uma referência ao pai, uma filiação, que amarra a rede significante.
Na neurose há uma divisão entre o saber inconsciente e o “eu”, ou seja, de um lado há uma dívida com o pai e do outro o delírio da autonomia, efeito da repressão da dívida (delírio da não filiação: “Eu posso escolher o que quiser”).
O perverso, como o neurótico, também faz um saber referenciado ao pai, com a diferença de que ocupa o lugar da Lei, ele mesmo é o pai.
Já na psicose, esta divisão não é mantida, não há referência a um sujeito suposto saber. Não há amarração de um ponto que centralize o saber, organizando todas as outras significações. O discurso não se autoriza a partir de uma transmissão, não se estabelece uma filiação. Nesse sentido, Calligaris (1989), nomeia o psicótico como sujeito errante, que faz um percurso infinito sem um destino idealizado.
Como o psicótico não faz a suposição de saber num Outro, é preciso que ele sustente, por si mesmo, este saber, que se faz de forma total, idealmente completa, um saber infinito. Nesse sentido, Lacan fala de uma hipertrofia egóica do psicótico, já que o saber é sustentado com a certeza egóica.
O autor, ao falar da diferença do saber neurótico para o psicótico, afirma que é próprio do neurótico a paixão da ignorância (possibilidade de descanso, pois há um que sabe). Enquanto que para o psicótico haveria uma paixão do saber (rede de um saber total, impossibilidade de descanso).
Lacan utiliza o conceito de forclusão do Nome-do-Pai para se referir ao mecanismo de defesa característico das psicoses. Calligaris (1989) ressalta que, frente a um psicótico fora da crise, este conceito não se mostra útil para um diagnóstico, já que a forclusão só aparece no desencadeamento da crise, diante de uma injunção fálica.
A injunção fálica refere-se a uma metáfora paterna que, por não estar simbolizada para o psicótico, retorna no Real (função paterna no Real), na tentativa de construir uma metáfora semelhante à metáfora neurótica de filiação.
Na neurose a metáfora paterna permite ao sujeito um posicionamento sexual, uma sexuação, dizer-se como homem ou mulher. Na psicose a significação sexual será obtida no Real, a partir de uma função paterna Real. Por este motivo, em todo delírio, a questão da sexuação está presente, já que a significação da diferença sexual, colocada pela castração, não está dada.
Cabe ressaltar que o fato do psicótico não estar referido à função paterna, não significa que exista uma exclusão do Simbólico, ele está tomado na estrutura da linguagem, não estando apenas entre o Imaginário e o Real. Mas a linguagem é metonímica, sem uma metáfora fixa, o que leva a uma significação muito singular.
Bibliografia:
Calligaris, C. (1989) – Introdução a uma clínica diferencial das psicoses. Porto Alegre: Artes Médicas.
Lacan, J. (1985) - O Seminário. Livro 3. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
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