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Dentre os grandes autores que inauguraram a Psicanálise de crianças há aqueles como Winnicott, Spitz e Anna Freud, que deram bastante destaque ao ambiente (figuras primordiais) e ao valor da relação no processo de construção do psiquismo do bebê. Uma outra corrente de psicanalistas, embora não tenham descartado em hipótese alguma o valor dos pais como referências, acabaram por dar ênfase às fantasias e aos aspectos inatos da criança como Melanie Klein e seus seguidores. O posicionamento de cada um deles diante da teoria psicanalítica determinou a técnica a ser aplicada, alguns atendiam somente a criança, considerando a realidade psíquica e a construção do mundo interno como primordiais. Outra corrente de psicanalistas escuta os pais, considerando-os parte do trabalho, incluindo a orientação educativa.
Numa terceira direção, outro grupo de psicanalistas valorizou o aspecto da linguagem para o bebê. Na década de 60, teve origem na França o Grupo de estudos sobre o recém-nascido, difundindo-se, cada vez mais, a intervenção através da palavra junto aos bebês. Françoise Dolto foi uma das pioneiras no que diz respeito à importância atribuída à linguagem para os bebês e a importância da intervenção pela palavra. Este tipo de trabalho tinha como pressuposto uma tendência bastante evidenciada na França, em que se abordava a capacidade e a amplitude da apreensão da linguagem pelos bebês.
O conhecimento de Dolto como psicanalista, cuja originalidade consistiu em levar os limites da intervenção psicanalítica até os recém-nascidos, direcionou seu trabalho tanto para os pais, quanto para os profissionais em seu combate a favor da "causa das crianças", enfatizava que mesmo os pequeninos são analisáveis, fazendo desta autora uma referência indispensável ao estudo da infância. Mostrou-se sempre disponível em responder às indagações dos profissionais e dos ouvintes interessados, pois considerava que a psicanálise seria válida se pudesse ser encontrada nos fatos cotidianos.
A principal idéia defendida por Dolto é o extremo desejo de comunicação expressa pelo bebê, que precisa receber um “banho de palavras”, condição esta tão primordial à sua sobrevivência, tão importante quanto o leite que o alimenta, o que faz com que o bebê seja tão ativo quanto receptivo na busca de comunicação.
Para desfrutar dessa condição, o bebê precisa de alguém que se encarregue da função de estar a “serviço” de seus ritmos, assim a mãe deve alimentar o bebê se ele tiver fome e confortar as angústias. O papel da mãe não é ritmar as necessidades da criança e sim o inverso disso, ela deve se “submeter” aos ritmos do filho, inicialmente, para que este encontre seu próprio ritmo. Quanto à linguagem, a autora também preserva a noção de adaptação da mãe à criança, que deve aproximar as palavras, dizendo-as de modo que a criança possa compreendê-las.
Dolto (1999, p. 26) considerava que o trabalho do psicanalista inclui a "decodificação de uma linguagem que perturbou o desenvolvimento antes da fala". Acreditava que, quando se trata de bebês precocemente perturbados, é preciso cuidar desde cedo. Desenvolveu a cura analítica dirigida a esta população de pequenos, vendo os bebês como pessoas portadoras de uma verdade. Como um traço de seu estilo clínico, ela utilizava uma linguagem muito particular, considerando que as crianças dispõem, à sua maneira, de um acesso à linguagem. Ao fazer isso, ela as retirava do status social de infans, etimologicamente os que não falam, afirmando assim que o ser humano é um ser de linguagem, antes mesmo de saber falar.
Diante da afirmação de que “tudo é linguagem”, Dolto argumentou que a criança nasce imersa num mundo simbólico, cabendo, portanto, um trabalho simbólico. Considerava surpreendente perceber a linguagem em todas as suas dimensões, ampliando a noção restrita à fala. Citou inúmeros exemplos dos modos que a criança se faz perceber, quando ainda não possui o recurso da fala, ela se expressa mordendo, sugando, adoecendo, manifestando sua libido através do que está ao seu alcance. À medida que a criança encontra sentido, seu corpo se subjetiva e o eu pode ser, finalmente, encontrado (DOLTO, 1996).
Dolto preocupou-se com a primazia da palavra, situando-a na “vizinhança conceitual de Lacan” (GUILLEAULT, 1999, prefácio), e assim ao dizer “tudo é linguagem” deu o seu testemunho da incidência da linguagem no corpo e como este é atingido por ela.
No mesmo arcabouço teórico de um pensamento que privilegia a linguagem encontrava-se Lacan. Inspirado pela antropologia estrutural e pela releitura de Freud, privilegiou o modelo lingüístico, fundamentando a idéia de uma estrutura básica que pensava o sujeito através da função simbólica, subvertendo com a noção de sujeito como um produto da linguagem.
Definiu o inconsciente como discursivo em sua clássica afirmação “o inconsciente é estruturado como linguagem” (LACAN, 1957-1958, p. 193). O inconsciente é resultante dos efeitos da fala sobre o sujeito, que tem a função concebida como efeito do significante. O significante e suas ligações têm um lugar exclusivo no tratamento psicanalítico.
Lacan foi mais adiante que o freudismo clássico na discussão sobre a relação arcaica com a mãe, interrogando sobre o lugar do pai, da mãe e da criança no discurso simbólico, enfatizando a importância da falta na constituição do sujeito.
Nesta perspectiva psicanalítica, o sujeito é interpretado em termos de sua estruturação, de sua relação com o outro, na condição de semelhante e em termos de representação, no discurso de um conjunto social. Para a psicanálise de Lacan, a linguagem encontra lugar tanto na fala dos pais quanto em sua atribuição na condição de signo lingüístico às produções do bebê.
A presença ou a ausência desses signos tem valor fundamental, pois é nesse ponto que se situa a concepção da etiologia do sujeito na posição discursiva, ou seja, na linguagem como causa e não como conseqüência. Assim, considero que a psicanálise na perspectiva Lacaniana trouxe contribuições importantes na idéia de constituição de sujeito como efeito significante.
Dessa forma, para a teoria proposta por Lacan, a criança está inserida na estrutura, sendo afetada pela família e pelo desejo do Outro. Em sua fórmula (o desejo inconsciente é o desejo do Outro), afirmava que não existia a possibilidade de alguém ser gerado a partir de si mesmo; valorizava a herança simbólica, reconhecendo que o inconsciente pertence a uma cadeia de gerações. Faz referência ao Outro como lugar da linguagem.
É para esta última corrente, que privilegia o mundo simbólico, que o trabalho com os bebês se justifica, em que há a escuta da estrutura simbólica na qual o bebê está inserido e também sobre o que está fora deste registro simbólico, portanto no Real.
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