Devemos a Freud a introdução deste tema, foi por meio da análise de seus pacientes adultos e de sua própria análise, que ele pode perceber que os conteúdos que emergiam como materiais de análise eram referentes às questões presentes desde a infância, mobilizadas nesse período e atualizadas no tempo presente. Diante do que era manifestado, Freud pode elaborar toda uma construção teórica sobre o inconsciente, seu funcionamento e suas influências na vida adulta. Remeteu-se à primeira relação do bebê com sua mãe como protótipo das relações que o ser humano irá estabelecer posteriormente, estando esse material recalcado (Freud, 1905).
Para Lacan, o recém-nascido surge como um ser extremamente frágil. O ser humano é o ser que nasce mais despreparado para enfrentar, sozinho, as dificuldades impostas pela sobrevivência, pois existe uma restrição e insuficiência de seus recursos. Essa condição de prematuridade e desamparo impõe a presença de uma figura que garanta a sobrevivência do bebê. A mãe é, na maioria das vezes, o agente de cuidados, transmitindo também a cultura (Lacan, 1938).
Essa condição inicial de desamparo do bebê torna-o extremamente dependente, o único recurso que possui para expressar suas carências e invocar ajuda é o grito, que mostra simplesmente seu mal-estar. O grito é a expressão de uma tensão e o agente materno, ao escutá-lo, empresta sua subjetividade para interpretá-lo como um pedido, nomeando se é fome, frio, sono ou atenção. No decorrer da experiência, percebe que o filho demanda também sua presença, e assim ele vai sendo integrado num sistema de comunicação, onde o choro equivale a uma palavra dirigida a esse Outro, agente materno.
Infante (2000) afirma que o bebê não nasce sujeito, se instala uma subjetividade. No início de vida há uma alienação do bebê na subjetividade materna, uma ilusão de completude. A mãe desse modo tem como função supor que o bebê tem desejo. Do ponto de vista do bebê, a mãe ao atendê-lo é percebida como extremamente poderosa, onipotente, sendo detentora dos objetos satisfação.
À medida que os pedidos do bebê vão aumentando, a cada demanda vão surgindo muitas outras exigências. Diante da demanda insaciável, de amor, inevitavelmente, a mãe acaba apresentando falhas, representadas por ausências, atrasos, enganos, equívocos. Essas falhas proporcionam experiências de frustração, pois o bebê perde a ilusão de completude. O bebê passa a perceber uma mãe frustrante que, até então, era poderosa e onipotente.
Diante dessa construção a mãe vai se apresentando ao filho como autônoma em seus desejos, ou seja, responde a seu critério. Essa é uma condição inexorável, uma vez que o bebê deseja algo que está para sempre perdido (Lacan, 1956).
Esse sentimento de falta provoca no bebê a questão sobre o desejo materno: “se a mãe pode dar ou recusar os objetos de satisfação é porque ela tem desejos!”.
Essa questão sobre o desejo do Outro exige uma resposta, que é pressionada pela angústiade castração, pois a criança sente que ela não basta para satisfazer a mãe, não a completa. Isso a leva a imaginar o pai como foco de atração para o desejo da mãe, pois se ela sai em busca de algo é porque exatamente algo lhe falta.
É fácil observar as crianças se dirigirem para onde a mãe olha, para onde e para o que se interessa, na tentativa de desvelar a pergunta sobre o desejo e percebe que o mundo tem uma existência real apesar dele. Esse enigma do bebê tem como principal protagonista a função paterna, melhor dizendo, a metáfora paterna. O pai é o agente da castração, ele convoca a mãe a ocupar outros lugares, à revelia da maternidade, ou seja, convidando-a para ser mulher, esposa, companheira.
O pai é sentido como um outro privador e onipotente, com o qual a criança pode rivalizar. Nesta rivalidade imaginária, a criança acredita que o pai possui algo (algum objeto importante) pelo qual a mãe possa se interessar, ocorre assim um deslocamento em que a criança não completa a mãe, sendo o pai(imaginário), nessa trama, o provedor da mãe.
Porém, a mãe não se completa, ora se dirige para a criança, ora para o pai e para outras coisas, referidas ao seu desejo. Esse movimento de idas e vindas apresenta à criança a condição faltante da mãe e do pai e possibilita também, criar um espaço de separação entre ambos.
Toda essa dialética é um construto teórico chamado de Complexo de Édipo, cuja resolução se dá ao impedir o incesto, castrando a mãe de manter o filho como objeto de seu desejo. Esta falta diz respeito ao que Lacan denomina como precursor do sujeito, a criança pode com isso desejar e inserir-se no meio social e cultural.
Mannoni (1971) define esta situação edípica como encruzilhada em que a criança deve deixar uma relação dual, imaginária, para então entrar no mundo simbólico. Coloca que a Lei da interdição do incesto ou função paterna não é uma lei editada, mas uma lei interna que, quando não respeitada, aniquila o sujeito. Aquele que não abdica de seu lugar como objeto fálico, não parte em busca de seu desejo.
É nesse cenário que ocorrem todos os movimentos identificatórios, de subjetivação e de socialização da criança. Sendo, portanto, a primeira sociedade do bebê. Através das intervenções do pai e do investimento materno o bebê deixa de ser objeto, para adquirir o estatuto de sujeito.
Demarcar lugares permite localizar onde cada membro se situa diante da estrutura familiar, seja este lugar de pais/filhos; menino/menina; homem/mulher. Essa operação privilegia à assimetria dos lugares estabelecidos pela diferença; e a democracia é posta em vigor, anunciando a existência de uma lei respeitada e compartilhada por todos : o Pacto Social, que é necessário ao processo do tornar-se humano (Lévi-Strauss, 1908).
Referências
Freud, S. (1905) – Três Ensaios sobre a sexualidade. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1962.
Lacan, J. (1956-1957)– O seminário 4: A relação de objeto; texto estabelecido por Jacques Allain-Miller; tradução Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.
Lévi-Strauss, C.(1908) – As estruturas elementares do parentesco. Petrópolis, Vozes, 1982.
Mannoni, M. - A primeira entrevista em Psicanálise, Rio de Janeiro: Campus, 1971.
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