Na jornada em busca de respostas sobre o alcance do trabalho com os bebês e seus pais, pude encontrar, para além de minha prática, uma autora que discutiu, de modo bastante original, a intervenção precoce. Elsa Coriat (1997) se referiu à intervenção, chamando-a de estimulação precoce, que é um campo que engloba a clínica da escuta dos bebês e de seus pais. Enfatizou as dificuldades encontradas na obtenção de uma definição universal para esse tipo de intervenção. Porém, um ponto importante destacado por ela foi a presença de diferentes profissionais que atuam nesse campo, cujo marco está na interdisciplinaridade.
Historicamente, é uma disciplina que surgiu por volta de três décadas e as nações que mereceram destaque no que se refere às influências na evolução desta clínica foram: Argentina, Estados Unidos, Uruguai e, posteriormente, Espanha.
A estimulação precoce teve, em sua trajetória, um denominador comum que foi o estudo da maturação do lactente, a psicologia evolutiva e genética e, também, o modelo neuropsicológico baseado nos estudos do reflexo e desenvolvimento motor.
Elsa Coriat (1997) menciona em seu livro[1] o Hospital de Niños, lugar onde sua mãe e precursora da intervenção precoce na Argentina - Dra. Lydia Coriat, teve sua formação como pediatra,tendo implantado o trabalho com bebês. Nessa instituição, Elsa Coriat desenvolveu também, seu trabalho de doutorado, cujo tema foi o desenvolvimento neurológico do lactante.
Na mesma época, no campo da genética, houve a descoberta da trissomia do 21, causa da Síndrome de Down. Mesmo com essa descoberta sobre o determinismo genético, pouco se produziu, naquele momento, a propósito do que fazer com esses pacientes em termos de tratamento.
Nesse período, a maioria dos pacientes chegava aos serviços com a idade entre dois e três anos e isso ocorria tanto em Buenos Aires como nos Estados Unidos. Essa idade já era considerada precoce naquela época, porém, para Dra. Lydia Coriat, era uma idade tardia, pois observava em seus pacientes uma “deterioração psíquica”, sem relação com o quadro orgânico.
Em decorrência da cultura científica da época, que revelava pouca expectativa de melhora dos casos genéticos, muitas crianças com o diagnóstico de Síndrome de Down tinham prognóstico pouco favorável, no sentido de que haviam tido pouco investimento. No entanto, por meio desses pacientes, o hospital se tornou o primeiro lugar no mundo a colocar em prática a estimulação precoce, diferente dos moldes do behaviorismo que já havia se difundido nos Estados Unidos.
Houve uma paciente atendida pela Dra. Lydia Coriat, Tchitchí, que a instigou, pois foi a primeira em anos de seu percurso clínico que, após a intervenção, aumentou o desempenho cognitivo, contrariando os dados anteriores que afirmavam uma queda (de desempenho) associada à Síndrome. A discussão que emergiu como conseqüência da melhora apontava o diferencial no atendimento do caso, que era o acompanhamento de uma psicanalista. Assim, ao invés de ter tido atendimento restrito à estimulação de funções (motor ou fonoaudiológico), a menina teve um espaço de escuta. Isso levou à hipótese de que a superação do prejuízo manifestada por Tchitchí estava relacionada a aspectos da intervenção, mediada pela leitura do sujeito (CORIAT, ib.id.)
Os atendimentos marcados pelo referencial psicanalítico foram decisivos para a construção de um saber sobre a estimulação precoce, evidenciando o valor da subjetividade como condição para as aquisições das funções, sendo um fator que colabora diretamente na diferenciação de cada quadro diagnóstico e em sua gravidade. Afinal, o corpo é estruturado pela subjetividade (CORIAT, ib. id.).
Desse modo, a estimulação precoce referenciada pela Dra. Lydia Coriat, trazia o registro de uma Psicanálise, resultante de sua própria experiência em sua análise e também da troca proporcionada pelo convívio com profissionais de importância nessa área, tais como: Barnabé Cantlon, Alfredo Nestor Jerusalinsky e José Waksman, entre outros.
Com o auxílio do Dr. Waksman, a Dra. Lydia Coriat sentiu que o saber médico não oferecia respostas às questões colocadas por sua descoberta como ela expressou em uma carta enviada à direção do hospital: “o tratamento ativo de processos não tratáveis, atingiu excelentes resultados através da estimulação precoce” (CORIAT, 1997, p.64).
Visando colocar sua descoberta em funcionamento, compôs uma equipe interdisciplinar, resultando na entrada de profissionais com referenciais que permitiram a obtenção de efeitos surpreendentes no tratamento das crianças bem pequenas com Síndrome de Down, que incidiram no campo da subjetividade. Crianças que, até então, tinham um futuro marcado pelo preconceito de um diagnóstico, na maioria das vezes ligado ao autismo, passaram a ter a marca de um futuro incerto.
A partir daí, as experiências obtidas com os lactantes com Síndrome de Down foram estendidas a outros pacientes com diferentes dificuldades no desenvolvimento. Durante toda a década de 70, a comunidade clínica viu com muita desconfiança tratamentos aplicados a bebês, que estava atrelada à procura de esclarecimentos sobre um campo ainda muito novo.
Somente em meados da década de 80, devido aos avanços incríveis apresentados pela medicina, principalmente com relação a neuroplasticidade. Desse modo, as crianças com patologias graves passaram a ter uma chance de sobrevivência maior, já que a infância foi considerada como um momento propício para as intervenções. Houve também o desenvolvimento do tratamento das seqüelas, levando os deficientes, antes abandonados, a pertencer a um lugar social: o de “merecer” tratamento.
Foi nesse contexto que o trabalho teve uma grande repercussão, passando a ocupar, de forma intensa, o interesse do público pediátrico, psicológico e psiquiátrico. Essa experiência do Hospital de Niños, do Centro de Neurologia Infantil, posteriormente, chamado de Centro Dra. Lydia Coriat[2], que ocupou grande parte do panorama por onde estimulação precoce travou suas origens. Sendo de extrema utilidade, além do necessário conhecimento sobre o desenvolvimento evolutivo, a Psicanálise e a Psicologia foram fundamentais como instrumentos nessa empreitada, conforme sua fundadora já havia enfatizado.
Essa história inicial abriu a possibilidade de um novo campo de estimulação precoce, distinto do comportamentalismo difundido nos Estados Unidos, que estava baseado em um programa diário de atividades. Na estimulação precoce, como foi definida pela equipe do Hospital de Niños, para se fazer um semblante humano, o treino diário não se resume ao exercício de ficar em pé, reforçado pelo treinador, mas o exercício do tornar-se humano como estando reportado ao passado “que lhe corresponde e para deste modo, deixar abertos os caminhos concretos do futuro” (CORIAT, 1997, p.75).
CORIAT, E. – Psicanálise e Clínica de bebês. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1997.
CORIAT, H. L.; Terzaghi, M.A. – Fundamentos e limites da estimulação precoce. Algumas reflexões. In: Estilos da clínica: Revista sobre a infância com problemas, v.5, n.8, 17-23, 2000.
[1] CORIAT, Elsa. Psicanálise e Clínica de bebês. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1997.
[2] Após a ditadura militar, a Dra. Lydia Coriat, renunciou ao Hospital de Niños, devido à expulsão de inúmeros profissionais qualificados. Então, em 1971, fundou o centro de neurologia infantil com enfoque interdisciplinar. Ao falecer em 1980 esse centro passou a levar seu nome como homenagem.
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