"Formação dos Sintomas"


... "O sintoma fala mesmo àqueles que não sabem ou que não querem ouvi-lo, ele não diz tudo, mais ainda, esconde o fundo do seu pensamento, mesmo àqueles que querem dar-lhes ouvidos. O próprio portador dessa mensagem ignora seu autor tanto quanto seu destinatário." (Neuter, pp.248, 1999)

A noção de sintoma se define, para Freud (1926), como formação de compromisso entre as representações recalcadas do desejo inconsciente e as exigências defensivas. O sintoma é a solução encontrada pelo sujeito ao conflito entre os elementos, cuja satisfação é censurada e a defesa, que visa manter a integridade do indivíduo diante do perigo do desejo proibido.

Para solucionar esse conflito a formação de compromisso entra em ação, nesse sistema o que foi recalcado pode ser admitido na consciência, pois se apresenta de tal forma descaracterizado, que não apresenta risco. É uma forma de reconciliação entre a oposição dessas tendências.

O retorno pode ser manifestado pelo deslocamento, pela condensação, pela conversão, etc., evocando o material que não pode ser realizado por via direta. Assim, nessa relação com as pulsões, o sujeito se utiliza de defesas para direcioná-las de modo socialmente aceito, ou seja, submetido à Lei (Laplanche e Pontalis, 1998).

"O sintoma é, então, definido como a realização de uma fantasia de conteúdo sexual, ou seja, representa, na totalidade ou em parte, a atividade sexual do sujeito provinda das fontes das pulsões parciais, normais ou perversas"(Dias, pp.402, 2006).

Ainda que a Psicanálise tenha surgido do estudo do sintoma como formação do inconsciente, correlato ao retorno do recalcado, é na forma de um enigma que ele pode ser decifrado. No entanto, os analisantes revelaram a Freud que a significação e a simples revelação à consciência não bastava na construção analítica para se trabalhar o sintoma.

Para Lacan, a psicanálise não busca sua eliminação e, nesse aspecto, é o avesso das ciências cartesianas. Uma das grandes inovações trazidas por ele, encontra-se precisamente na consideração do sintoma como possuidor da verdade que não se refere à significação. Nos remete à formulação de que o sintoma é o significante de um significado recalcado da consciência do sujeito e que, por essa natureza, não é acessado (Lacan, p. 282, 1953/1998).

A organização em torno da impossibilidade de completude marca o sujeito, tem relação com o modo como cada um goza no seu inconsciente, é aí que seu valor de estrutura reside: na revelação da inexistência da “relação sexual”, do encontro entre o desejo e o objeto. O objeto está para sempre perdido.

Como foi dito, na direção do tratamento não se almeja a abolição dos sintomas. A análise fica incumbida de instrumentar o sujeito a se posicionar diante deles, à medida que sabe do que é prisioneiro. Desse modo, Lacan introduziu a dimensão do gozo, como uma importante economia, pois o sujeito goza com a contradição de seu sintoma.

A análise é um dispositivo voltado à escuta da verdade que se oculta no sintoma, de que a condição de falante, nos direciona à de faltante. Então, se o inconsciente está estruturado como linguagem, articulado como rede de significantes, haverá sempre um semi-dizer do sintoma, que jamais se esgota. Nele existe a cristalização do fluxo associativo que se expressa pelo real, no ato, no corpo ou em comportamentos e o sintoma diz disso - do real.

A castração encontra seu fundamento na condição de que algo sempre escapa à linguagem, à satisfação absoluta, a falta, então, se apresenta.

Resumindo, a reação terapêutica negativa, a compulsão à repetição, levou Freud a formular sobre o ganho primário e secundário do sintoma. Ao mesmo tempo em que o sujeito quer se livrar do sintoma, ele o mantém. O patológico foi definido quando há o imperativo de uma modalidade de satisfação, com objeto estabelecido.

Bibliografia

DIAS, M.G.L.V. O sintoma: de Freud a Lacan. Psicologia em Estudo, v. 11, p. 401-407, 2006.
LACAN, J. - Função e campo da palavra e da linguagem in Escritos. RJ: Zahar, 1998.
NEUTER, P. Do sintoma ao Sinthoma. Dicionário de Psicanálise. Freud e Lacan, p.247-258. Salvador: Álgama, 1997.

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