A hospitalização diante de alguma doença grave traz à criança e sua família um momento crítico diante da preocupação colocada de imediato a respeito do risco de vida e com a integridade do corpo.
Quando a criança é internada, precisa lidar com procedimentos invasivos e de difícil compreensão (provocam dor, mas proporcionam a cura), cujos efeitos podem ser percebidos na forma como a criança passa a se comportar em suas relações, ficam mais sensíveis, choram com facilidade, gritam , sentem medo, não conseguem dormir. Manifestam muitas dificuldades e falam pouco a esse respeito.
Alguns fatores estão correlacionados com a dificuldade do processo de hospitalização: afastamento de casa, da escola, da convivência familiar, falta de estímulos (brincar, dificuldade de mobilidade, falta de liberdade, diminuição da convivência com crianças “saudáveis”).
Existe também o sofrimento gerado pela doença e o tratamento. A criança costuma imaginar sobre o “estado” em que se encontra, temendo não melhorar. Percebe a fragilidade do corpo, pode passar por mudanças visíveis como emagrecimento, inchaço, deformação, etc. Os pais concomitantemente se questionam sobre as razões que levaram a criança a adoecer.
Para o psicanalista que trabalha em instituição hospitalar é importante escutar os efeitos da internação hospitalar na subjetividade da criança, considerando a importância da participação dela sobre o que está acontecendo em sua vida e em seu corpo. É necessário que ela se comunique, fale de suas angústias e fantasias. Mesmo que não racionalize, tem a percepção de sua situação e sente quando não está bem. Quando isso acontece, não quer brincar, solicita mais atenção e, às vezes, silencia ao perceber que está excluída das comunicações referentes à situação.
Diversos autores observam a importância dos pais no processo como mediadores entre a criança, a equipe e com a experiência de internação. Essa função de mediar é necessária, já que o corpo da criança está tomado pelo real, por aquilo que a criança não sabe nomear. Os pais podem escutá-la e auxiliar, buscando nomear, considerando suas colocações, pois o mundo subjetivo influencia no processo de recuperação. A criança tem participação e responsabilidade em sua doença.
René Spitz trabalhou por muitos anos com crianças institucionalizadas, órfãos, vítimas da guerra e atribuiu extrema importância à proximidade do laço da criança com os pais, pois em suas pesquisas pode constatar que as crianças pequenas quando separadas de figuras significativas, com quem havia estabelecido relações afetivas, podem desenvolver quadro depressivo ou até mesmo melancólico. Alguns bebês quando abandonados chegavam a morrer devido à apatia e à perda de vontade de viver, e ainda havia aqueles que acabavam permanecendo longos períodos no hospital, já que não conseguiam se recuperar da doença, o que adiava a alta hospitalar.
É condição necessária à hospitalização que as demandas da criança, possam ser dirigidas alguém que não seja anônimo, que possa fazer uma leitura do que está expressando. Quando são bebês cabe à equipe pode oferecer suporte aos pais, cuidando para não excluí-los de seus papéis. Lembrando que o sintoma da criança, quando manifestado no corpo, por meio de doenças graves, pode remeter os pais às suas próprias questões e angústias, sobre sua história individual, em relação à parentalidade e conjugalidade.
Em decorrência desses conflitos, o narcisismo dos pais passa por um abalo importante, perguntam se a doença é hereditária, eles querem saber se há culpados. Quando a enfermidade é genética esse aspecto fica acentuado, podendo fragilizar o casal.
É importante salientar que a subjetividade é parte importante e está sempre presente no processo de adoecimento e de cura, devendo ser explicitada e acolhida pelos pais e pela equipe que trata da criança.
Afinal, o melhor prognóstico se encontra naqueles que podem esperar que algo diferente e melhor aconteça, e isso é percebido pela criança na medida em que escuta seus desejos e decide viver.
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