“Inibições, Sintomas e Angústia” (1926) - Resenha

A questão da angústia constitui o tema central do texto. Freud aborda também as diferentes classes de resistência, a distinção entre repressão e defesa e as relações entre angústia, dor e luto.

Em seus primeiros textos era clara a tentativa de expressar a psicologia em termos fisiológicos. Inicialmente, infere que a neurose de angústia estaria relacionada com a descarga de tensão sexual, sendo a angústia um processo físico, resultado da excitação acumulada. Mais tarde, passa a atribuir ao fator psicológico (repressão) o motivo do acúmulo da libido, mas não abandona a teoria de que a angústia surge de uma transformação da energia acumulada. A princípio, o termo angústia é utilizado como sinal de desprazer.

No presente texto, abandona sua teoria da angústia como originada da libido e passa a considerá-la como uma reação a uma situação de perigo ou traumática. Abandona também a dicotomia entre angústia realística (em função de uma excitação exógena) e angústia neurótica (endógena). Afirma que as situações de perigo apesar de serem diversas, têm em comum o medo da perda do objeto amado (separação) ou de seu amor e sustenta que a experiência de nascimento seria o protótipo de todas as angústias.

O autor salienta a importância de distinguir os sintomas das inibições. Para ele, a inibição seria restrição de uma função do ego, não sendo, necessariamente, patológica. Entre as inibições das funções do ego, destaca: a sexual, de nutrição, de locomoção e de trabalho.

Freud relata que existe uma relação entre inibição e angústia, uma vez que as primeiras podem surgir como uma tentativa de evitar a angústia. Para ele as inibições têm diferentes origens: podem surgir em decorrência de uma tentativa do ego em evitar um conflito com o id, com o superego ou podem ocorrer em função de um empobrecimento da quantidade de energia.

A inibição específica de um órgão físico corresponde ao primeiro caso “o ego renuncia a essas funções (...) a fim de não ter de adotar novas medidas de repressão – a fim de evitar entrar em conflito com o id” (p.93). Isto acontece em função do significado sexual do órgão, decorrente de uma intensa erotização deste, em que seu funcionamento representaria a realização de um ato sexual reprimido (assim, por exemplo, escrever teria o significado da copulação).

Freud classifica as inibições que visam evitar um conflito do ego com o superego como tendo uma finalidade de autopunição e as exemplifica com as inibições de atividades profissionais, nas quais a pessoa não se permite ter êxito no trabalho. Entre aquelas que ocorrem em função de um empobrecimento da quantidade de energia, cita o luto, em que a pessoa perde energia com a perda do objeto amado e por isso precisa reduzir a energia gasta em outras coisas.

Para Freud, um sintoma, ao contrário de uma inibição, é um sinal de algo patológico e que não ocorre dentro do ego ou atua sobre este. O sintoma teria um caráter de extraterritorialidade na medida em que existiria fora e independentemente do ego.

Um sintoma é acarretado pela repressão, sendo um sinal e um substituto de uma satisfação pulsional. Desse modo, afirma que o sintoma é uma formação substitutiva ou de compromisso na medida em que cria algo no lugar do processo pulsional ameaçador, suprime-o ou desvia-o de seus objetivos. O sintoma seria sinal de que a repressão falhou, de modo que a pulsão teria encontrado “um substituto muito mais reduzido, descolado e inibido, e que não é mais reconhecido como uma satisfação e (...) sua realização apresenta, ao contrário, a qualidade de uma compulsão” (p.98).

Freud destaca que o processo de repressão ocorre no ego, que é a sede da angústia. “A angústia é um estado afetivo e como tal, naturalmente, só pode ser sentida pelo ego” (p. 139). As primeiras repressões acontecem antes do estabelecimento do superego, sua origem estaria relacionada à quantidade de energia. Na repressão, o ego recusa a catexia provocada no id, transformando o que seria sentido como prazer (por meio da satisfação pulsional), em desprazer. A repressão atua sobre o impulso e sobre seu representante psíquico.

Freud ressalta que o ego é uma parte “organizada do id”, não se opondo a este. Diz também que ego e superego não são separados e que muitas vezes, acham-se fundidos.

No terceiro capítulo, aponta para a existência de um ganho secundário proveniente da doença, que ocorre em função do ego incorporar o sintoma (torna-o parte dele mesmo), de forma que o sintoma torna-se indispensável ao ego. O ego defende o sintoma na medida em que este se torna um substituto da pulsão reprimida - assume seu papel, exigindo assim, satisfação constante. “... esses laços conciliatórios entre o ego e o sintoma atuam do lado das resistências e não são fáceis de afrouxar” (p.102).

Retomando o caso do Pequeno Hans e do Homem dos Lobos, Freud observa a presença de sentimentos ambivalentes frente a figura paterna e afirma que nesses pacientes, o impulso hostil contra o pai sofreu repressão ("impulso assassino do Complexo de Édipo") por meio do processo de ser transformado em seu oposto (eles temiam os animais ao invés de agredi-los). Ele salienta que o sintoma, nesses casos, não seria o medo, mas sim, o deslocamento (substituição) da figura do pai pela de um animal (cavalos no primeiro caso e lobos, no segundo).

O autor também destaca a repressão pela qual passou a libido, regredindo da fase fálica para a oral. Para Freud, a força motriz da repressão nestes casos clínicos teria sido o temor de castração, o que confirma sua hipótese de que a origem da repressão estava na angústia, no medo de um perigo (castração). “Foi a angústia que produziu a repressão e não, como eu anteriormente acreditava, a repressão que produziu a angústia (...) É sempre a atitude de angústia do ego que é a coisa primária e que põe em movimento a repressão. A angústia jamais surge da libido reprimida” (p.111).

Freud afirma que existe uma grande relação entre angústia e sintoma, já que estes se formam com a finalidade de evitar a angústia: os sintomas “reúnem a energia psíquica que de outra forma seria descarregada como angústia. Assim este seria o fenômeno fundamental e o principal problema da neurose” (p.142). A angústia, diz ele, é condição necessária para o surgimento do sintoma, pois é ela que desperta o mecanismo prazer-desprazer, que paralisa os processos do id.

Freud afirma que a finalidade de destruição do complexo de Édipo e o temor de castração são aspectos em comum na formação dos sintomas dos três tipos de neurose (fobia, neurose obsessiva e histeria). No entanto, descreve sintomas peculiares a cada neurose.

 Com relação aos sintomas da neurose obsessiva, os classifica em dois grupos: os negativos (proibições, precauções e expiação) e as satisfações substitutivas (disfarce simbólico). Afirma que estes sintomas são, geralmente, bifásicos, ou seja, uma ação que impõe algo e outra que desfaz a primeira (“mágica negativa”). Essa tentativa de desfazer algo que foi feito aparece na obsessão de repetir. Freud também aponta para o isolamento, mecanismo de defesa utilizado pelos obsessivos e que difere das histéricas, que utilizam muito a amnésia (embora o efeito seja o mesmo). No isolamento a experiência, ao invés de esquecia, é cindida de seu afeto e de suas conexões associativas.

Freud diferencia a histeria da neurose obsessiva também ao dizer que, na segunda, o ego atua mais na formação dos sintomas e que o próprio processo de pensar se torna hipercatexizado e erotizado. O autor destaca o “tabu de tocar” (medo de contaminação, por exemplo), tão freqüentemente encontrado nestes pacientes e que visa impedir as catexias agressivas e amorosas.

O autor também afirma que nas neuroses obsessivas, além da repressão como defesa, o ego utiliza-se da regressão, em que a organização genital é lançada ao nível anal-sádico. Para ele, a neurose obsessiva é marcada por um grande conflito entre o id e o superego. Afirma que a severidade do superego destes pacientes é decorrente do fato deste comportar-se como se a repressão não tivesse ocorrido, como se conhecesse o caráter agressivo da pulsão. Nestas neuroses há um fracasso da defesa e o ego fica extremamente restringido, procurando satisfação nos sintomas. “Além da destruição do complexo de Édipo verifica-se uma degradação regressiva da libido, o superego torna-se excepcionalmente severo e rude, e o ego, em obediência ao superego, produz fortes formações reativas de consciência, piedade e anseio” (p.116).

Com relação ao temor de castração das mulheres, Freud oscila sua opinião, conforme o que considera castração: temor da perda do pênis ou medo de separação. Em alguns momentos, afirma que a angústia de castração não existiria, uma vez que estas já são castradas e em outros, diz que está presente e aparece pelo medo da perda de amor. “Afigura-se provável que, como um determinante da angústia, a perda do amor desempenha o mesmíssimo papel na histeria que a ameaça da castração nas fobias e o medo do superego na neurose obsessiva” (p.141).

Com relação à fobia, o autor salienta que há uma formação substitutiva (distorção com relação à localização da ameaça) que apresenta duas vantagens. Por um lado, evita um conflito com relação à ambivalência de sentimentos perante o pai (é amado e odiado) e, por outro, impede o ego de gerar angústia, já que o perigo interno é projetado para outro externo, de forma que passa a ser possível fugir do perigo - o que não ocorre quando este surge de dentro (ao preço de uma inibição do ego, como fez Hans, impondo uma restrição a este). “A angústia que pertence a uma fobia é condicional: ela só surge quando o objeto dela é percebido” (p.125)

Já na neurose obsessiva o perigo é localizado no superego, ficando internalizado. “Se criam sintomas a fim de evitar uma situação de perigo cuja presença foi assinalada pela geração de angústia” (p.128).

Freud amplia a descrição da angústia a concebendo como uma reação a um perigo específico para cada fase da vida: “Assim o perigo de desamparo psíquico é apropriado ao perigo de vida quando o ego do indivíduo é imaturo; o perigo da perda de objeto, até a primeira infância, quando ele ainda se acha na dependência de outros; o perigo de castração, até a fase fálica; e o medo do seu superego, até o período de latência. Não obstante, todas essas situações de perigo e determinantes de angústia podem resistir lado a lado e fazer com que o ego a elas reaja com angústia num período ulterior ao apropriado; ou, além disto, várias delas podem entrar em ação ao mesmo tempo” (p.140).

Freud salienta que desprazer e angústia não são sinônimos. Apesar da angústia ter características de desprazer, ela não possui apenas esta qualidade. Apresenta também atos de descarga (sensações físicas presentes e ligadas a órgãos específicos do corpo, como o respiratório) e as percepções desses atos. “Devemos estar inclinados a pensar que a angústia se acha baseada em um aumento de excitação que, por um lado, produz o caráter de desprazer e, por outro, encontra alívio através dos atos de descarga” (p.132).

“Finalmente, o ser adulto não oferece qualquer proteção absoluta contra um retorno da situação de angústia original. Todo indivíduo tem, com toda probabilidade, um limite além do qual seu aparelho mental falha em sua função de dominar as quantidades de excitação que precisam ser eliminadas” (p.146).

Freud relata que a repressão, ao mesmo tempo em que inibe os processos do id considerados ameaçadores, os deixam independentes, livres da soberania do ego. “Isto é inevitável pela natureza da repressão, que é, fundamentalmente, uma tentativa de fuga. O reprimido é agora, por assim dizer, um fora-da-lei; fica excluído da grande organização do ego e está sujeito somente às leis que regem o domínio do inconsciente”.(p.149). Frente a uma situação de perigo o id seguirá o curso de suas pulsões por meio da compulsão à repetição. “O fator de fixação na repressão, portanto, é a compulsão à repetição do id inconsciente” (p.150).

A análise teria como função levantar as repressões, tornando as resistências conscientes, de forma que o ego recupere seu poder sobre o id. No entanto, Freud observa que mesmo após tornarem-se conscientes, o ego não abandona a repressão que aparece no poder de compulsão à repetição. Esta compulsão é denominada por ele como a resistência do inconsciente.

O autor descreve cinco espécies de resistências, três que provém do ego (resistência da repressão, resistência da transferência, ganho proveniente da doença – oriundo da assimilação do sintoma ao ego), uma do id (repetição) e uma do superego (sentimento de culpa, necessidade de punição). Freud aponta para três fatores que desencadeiam uma neurose: o biológico (condição de desamparo e dependência da espécie humana), que cria a necessidade de ser amado; o filogenético (características do desenvolvimento da libido, exigências da sexualidade) e o psicológico (diferenciação do aparelho mental em um id e um ego).

Freud faz uma distinção entre angústia (Angst) e Medo (Furcht) afirmando que a primeira é sem objeto. Diz que na angústia o perigo é desconhecido (desamparo psíquico), diferentemente da angústia realística (desamparo físico), em que se conhece o perigo. “A angústia, por conseguinte, é, por um lado, uma expectativa de um trauma e, por outro, uma repetição dele em forma atenuada” (p.161)

O autor salienta o dispêndio permanente de energia efetuado pela repressão, uma vez que as pulsões têm uma natureza constante.

Freud denomina de resistência a ação que garante a repressão e a qualifica como uma anticatexia. Como uma das formas de resistência cita a formação reativa, onde o que aparece é o oposto da tendência pulsional. Na neurose obsessiva elas atingem a universalidade dos traços de caráter (alteração do ego, anticatexia interna), enquanto que na histeria e na fobia fica restrita a objetos específicos (anticatexia externa).

 

Bibliografia:

Freud, S.(1926) Inibições, sintomas e angústia. In: Obras psicológicas completas: Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


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