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Dom, 21/03/2010 - 08:22


Cada vez mais encontramos crianças que usam medicamentos para controlar e eliminar seus sintomas emocionais e comportamentais.

Na minha prática clínica em uma instituição pública de referência no tratamento de crianças e adolescentes e no meu consultório particular, tenho me deparado com um número crescente de crianças que são medicadas a partir de diagnósticos mal feitos, baseados numa observação clínica extremamente superficial. Estes crianças quando encontram um espaço de escuta mais aprofundado, que trabalha suas questões subjetivas e que leva em consideração a dinâmica familiar, tendem a apresentar melhoras clínicas sem precisar de medicação.

Quando fazemos um diagnóstico clínico na infância precisamos levar em consideração alguns aspectos que ultrapassam a observação da fenomenologia.

A presença de um determinado sintoma pode ser indicativa de uma patologia, mas ela não é suficiente para estabelecer um diagnóstico, já que os sintomas infantis têm a particularidade de serem muito plásticos e transitórios, além de estarem ligados a questões subjetivas que se relacionam quase sempre à dinâmica familiar. Um mesmo sintoma pode surgir num desenvolvimento normal ou num quadro clínico.

A teoria psicanalítica oferece uma concepção de sintoma que ultrapassa o plano comportamental na medida em que lê o sintoma como uma espécie de linguagem cifrada que dá acesso aos conflitos inconscientes da criança, do casal e da família.

Vou dar aqui um pequeno fragmento clínico que ilustra a função inconsciente de um sintoma numa criança.

Trata-se de uma menina de 6 anos diagnosticada como hiperativa por não conseguir parar quieta e não se concentrar em tarefas simples como assistir televisão. Inicialmente, atendo esta menina junto com a mãe e observo que ela fica extremamente agitada, sendo incapaz de permanecer sentada.

Nas observações clínicas sem a presença da mãe observo, surpreendentemente, que a criança consegue permanecer sentada e tranqüila após uma pequena colocação de limites. Decido então, chamar novamente a mãe para que possa me falar um pouco de sua história.

Durante o relato de sua vida, chama a atenção o episódio que conta ter sido abusada sexualmente na infância e a justificativa que dá para que tal violência tenha ocorrido: “É que eu sempre fui muito quietinha e por isso ele mexeu comigo”.

A partir daí fica explicitado a fantasia materna: “ser quietinha é perigoso, quem é quieto é abusado sexualmente”. Após alguns meses em que pode ser trabalhado o sofrimento da mãe e sua fantasia, a criança foi se tranqüilizando e os sintomas de hiperatividade desapareceram: ela não precisou ficar mais angustiada com a angústia de sua mãe.

Este é um relato extremamente sucinto (o trabalho é mais amplo), mas que nos ajuda a pensar na complexidade das manifestações clínicas da infância.

Não me oponho radicalmente à medicalização de uma criança. No entanto, saliento a importância de sermos mais críticos a este fenômeno social que tem sido banalizado, como se o uso de remédios fosse inócuo. Além dos efeitos colaterais, muitas vezes sérios, a medicação pode encobrir um sintoma, impedindo um questionamento dos pais e da própria criança a respeito das questões emocionais que sustentam tal comportamento. Se estas questões não forem trabalhadas outros sintomas podem surgir no lugar do antigo.

Impedir algumas manifestações comportamentais e entendê-las como um sintoma que deve ser medicalizado pode impossibilitar um trabalho necessário à criança de elaboração de suas questões. Muitas vezes, a tarefa do clínico é a de autorizar este trabalho psíquico e não de calá-lo.


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