Nos dias atuais é freqüente a demanda por atendimento de pacientes encaminhados com o diagnóstico de depressão. Este termo é utilizado de modo um tanto genérico e, aos poucos, vai se identificando que este pedido pode se referir: à uma tristeza devido à vivência de situações atuais de sofrimento (internação no hospital, perdas, acidentes, etc.), à um quadro de depressão neurótica (quando este estado de luto é prolongado e tem conseqüências na vida prática do sujeito) ou à uma melancolia.
Em uma sociedade que valoriza cada vez mais o homem-máquina em detrimento do homem-desejante, a depressão como expressão de subjetividade domina a contemporaneidade assim como a histeria estava presente no final do séc. XIX . A depressão seria uma síndrome que mistura tristeza e apatia, busca da identidade e o culto de si mesmo. O sujeito quer eliminar um certo vazio de desejo buscando algum tipo de terapia e cada vez mais crescem o uso de medicamentos (psicofármacos, homeopáticos, florais, etc.), de drogas ilícitas e da busca do místico (religiões, cartomantes, etc.) como uma maneira de encobrir seus sofrimentos. Este se sente mais confortável com uma explicação psicológica, de um saber sobre seu estado, que lhe é explicado como “fadiga”, “déficit” ou “enfraquecimento da personalidade”.
Já em relação à depressão grave e à melancolia apontamos a importância do uso de medicamentos e de acompanhamento psiquiátrico. O conceito de melancolia na psicanálise está situado junto às psicoses, diferenciando-se da depressão neurótica. Para essa diferenciação, o que é considerado primordial é mais a estrutura de funcionamento psíquico, isto é, o discurso do paciente e menos o que esses apresentam enquanto manifestação de sintomas. A melancolia, juntamente com a esquizofrenia e a paranóia situam-se no âmbito da não simbolização. Situar a melancolia como uma manifestação da psicose significa que então esta deve ser tratada a partir dos fenômenos da ordem da linguagem e dos fenômenos de gozo.
Freud inicia seu texto “Luto e Melancolia” dizendo que a melancolia assume várias formas clínicas, esta se caracteriza por “uma depressão profundamente dolorosa, uma suspensão do interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda atividade e a diminuição do sentimento de auto-estima que se manifesta em auto-acusação e auto-injúria indo até a espera delirante de punição”.
Situa a melancolia como uma afecção narcísica, ao lado da esquizofrenia e da paranóia, pois se verificam fenômenos de acometimento corporal do tipo hipocondríaco (dores vagas e generalizadas, zumbidos, palpitações, perda de apetite, etc) e distúrbios a nível da cadeia significante indo até o “automatismo” e a “parada psíquica”.
Segundo Freud, na melancolia há identificação com o pai morto. No entanto, não se trata de identificação com o totem que substitui o pai morto, isto é, não se trata de identificação simbólica ou incorporação do significante Nome-do-Pai. Se o sujeito não consegue a incorporação simbólica, o que lhe resta é a identificação com o vazio deixado pelo pai, com o pai ausente. Dessa maneira pode-se dizer que na melancolia há foraclusão do Nome-do-Pai, não é realizada a operação de intervenção de um terceiro que introduz a lei de proibição em relação à mãe. Sem essa mediação, a mãe não pode ser simbolizada e há continuidade da criança com o Outro, permanecendo identificada como objeto da mãe.
Nos dois casos, na neurose e na melancolia, trata-se da dor da perda. Esta perda pode ocasionar a melancolia, quando o sujeito entra em um trabalho de luto normal e pouco a pouco vai se evidenciando que não se trata de algo da ordem da perda, pois nessa estrutura, não é possível simbolização. Ocorre que há perda de um ideal que sustentava essa organização psíquica.
Na melancolia, o sujeito se identifica com o objeto perdido. Tinha escolhido um objeto de amor via narcisismo e, ao perdê-lo, volta esta relação de identificação imaginária sem reinvestir em nenhum outro objeto. No desencadeamento da melancolia, há perda de um significante que estava cumprindo uma função de suplência da foraclusão do Nome-do-Pai.
BIBLIOGRAFIA
COLETÂNEA – A dor de existir e suas formas clínicas: tristeza, depressão, melancolia - Ed. Kalimeros, 1997
FREUD, S. - Luto e melancolia (1915), vol XIV das Obras psicológicas completas de Sigmund Freud – Rio de Janeiro: Imago, 1996.
LACAN, J. – O seminário, livro II: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
ROUDINESCO, E. – Por que a psicanálise? – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.
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