"Neurose: algumas leituras"


Para se compreender a estrutura neurótica, cabe retomarmos um conceito fundamental dentro da psicanálise: o Complexo de Édipo.

A versão empírica do conceito de Complexo de Édipo surge no momento em que Freud abandona a teoria do trauma (a primeira formulada). Nela, ele afirmava que a causa da neurose era um trauma de natureza sexual, sofrido na infância, recalcado e retomado na puberdade; sendo o sintoma um representante inconsciente deste trauma. Esta teoria era baseada em aspectos ambientais, onde a ênfase do tratamento consistia em se descobrir a causa externa dos sintomas. É importante ressaltar que, nesta formulação, Freud desconsiderava o desejo da criança, que era vista como vítima do desejo de seus pais.

A partir de sua experiência clínica, Freud começa a suspeitar de que as recordações traumáticas relatadas por seus pacientes não correspondiam a “acontecimentos reais” e sim a fantasias. Há então, uma alteração profunda na sua formulação teórica a respeito das psiconeuroses, onde Freud passa a reconhecer a importância do conflito psíquico na produção dos sintomas e percebe que a criança tem sentimentos ambivalentes em relação a seus pais e que são, em parte, reprimidos.

Freud, ao se deparar com a questão das fantasias originárias e das teorias sexuais infantis, elabora o conceito estrutural do Complexo de Édipo. Nesse momento, a psicanálise passa a abordar a questão de desejo, onde a ênfase não recai mais na busca das causas dos sintomas e sim na compreensão do sentido do conflito (fantasia). A fantasia é considerada, então, como algo determinante face à realidade e que a determina. Dessa forma, o Édipo passa a ser compreendido como essencial à constituição do sujeito, sendo algo universal.

Laplanche e Pontalis (1998, p.296) definem a neurose como uma “afecção psicogênica em que os sintomas são a expressão de um conflito psíquico que tem raízes na história infantil do sujeito e constitui compromissos entre o desejo e a defesa”.

Segundo os autores, o termo atualmente está reservado as formas clínicas ligadas a neurose fóbica, obsessiva e à histeria. A classificação contemporânea distingue: afecções psicossomáticas, neuroses, psicoses (maníaco-depressiva e paranóia / esquizofrenia). Em 1924, Freud estabeleceu a nosografia psicanalítica distinguindo neuroses atuais, neuroses, neuroses narcísicas e psicoses.

Raquel Soifer (1992) estabelece um esquema nosológico evolutivo dinâmico dividido em: neurose, situações críticas, situações psicóticas, psicoses crônicas. A neurose é descrita como um quadro em que o ego se desenvolve normalmente na maioria de seus aspectos e funções de acordo com a idade cronológica da criança, havendo poucas regressões e escasso número de detenções e inibições no desenvolvimento. Todo ser humano apresenta certo quadro de neurose, o que é normal, dentro de certos limites.

Winnicott (1990, p.34) divide as doenças da psique em neurose e psicose, quando a saúde física da pessoa está garantida. Na neurose, as dificuldades começam a surgir no interior das relações interpessoais características da vida familiar, estando a criança então entre dois e cinco anos de idade. Nesta fase, a criança é total em meio a pessoas totais, sujeita a poderosas experiências instintivas baseadas no amor entre pessoas. O desenvolvimento emocional da criança ou do adulto ocorreu dentro de limites normais nos estágios anteriores.

Para Winnicott (1990), a saúde se estabelece na organização do primeiro relacionamento triangular onde a criança é impulsionada pelos instintos de natureza genital recém-surgidos, característicos do período entre os dois e cinco anos. No Complexo de Édipo, cada um dos componentes do triângulo é visto como uma pessoa total e não como um objeto parcial. Assim esse complexo caracteriza-se por ser um “ganho em saúde”.

A doença está ligada a repressão das idéias e a inibição das funções referentes ao conflito expresso de maneira ambivalente. Os sintomas neuróticos são organizações de defesa contra a ansiedade (ansiedade de castração), que surge dos desejos de morte inerentes ao Complexo de Édipo.

Na neurose, o indivíduo se utiliza de esquemas defensivos contra a ansiedade como a fobia, a histeria de conversão, a neurose obsessiva.

Freud afirma que na neurose obsessiva o trauma é acompanhado de prazer, ao contrário do que ocorre na histeria. Para ele, essa experiência de prazer retorna como desprazer em função da culpa.

Na obsessão encontramos, ao invés da conversão, a defesa por deslocamento, onde o afeto é ligado por falsas conexões a outras representações psíquicas que não a que estava presente no momento traumático (a representação incompatível com o eu, portanto, é recalcada e substituída por deslocamento).

Laplanche e Pontalis (1998, p.313) colocam que na neurose obsessiva, “o conflito psíquico exprime-se por sintomas chamados de compulsivos (idéias obsedantes, compulsão a realizar atos indesejáveis, luta contra esses pensamentos e estas tendências, ritos conjuratórios, etc.) e por um modo de pensar caracterizado particularmente por ruminação mental, dúvida, escrúpulos, e que leva a inibições do pensamento e da ação”.

Para Winnicott (1990), a neurose obsessiva aponta para um estado de caos interior, de desintegração. A ordem estabelecida pelo obsessivo é a representação externa da negação do caos interior.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Freud, S. - “Obras Completas da Ed Standard Brasileira”. Atos obsessivos e práticas religiosas. Vol. IX. RJ: Imago Editora, 1980.
Laplanche, J. e Pontalis – “Vocabulário da Psicanálise”. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
Soifer, Raquel – “Psiquiatria Infantil Operativa”. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.
Winnicott, D. W. – “Natureza Humana”. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1990.


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