"Neurose Obsessiva, uma introdução"


Freud afirma que na neurose obsessiva o trauma é acompanhado de prazer, ao contrário do que ocorre na histeria. Para ele, essa experiência de prazer retorna como desprazer em função da culpa.

Lacan caracteriza a neurose obsessiva através do desejo impossível e da falicização dos objetos da realidade psíquica: o que predomina é a lógica do ter e não do ser. O gozo desta neurose está localizado no registro anal, estando ligado à demanda que vem do outro (na histeria a demanda é ao outro). O obsessivo procura preencher a falta do Outro com os objetos erotizados de seu desejo.

Na obsessão encontramos, ao invés da conversão, a defesa por deslocamento, onde o afeto é ligado por falsas conexões a outras representações psíquicas que não a que estava presente no momento traumático (a representação incompatível com o eu, portanto, é recalcada e substituída por deslocamento).

“Os poucos exemplos de atos obsessivos já citados tornam claro que o simbolismo e os pormenores desses mesmos atos resultam de um deslocamento, da substituição do elemento real e importante por um trivial” .

O obsessivo trata o Outro como objeto de seu gozo. Ele “se engolfa em um circuito fechado do qual não pode sair e cuja finalidade lhe escapa, pagando o preço de manter seu desejo impossível, pois está sempre em outro lugar do que lá onde se corre o risco.”

O obsessivo se objetaliza a fim de evitar seu próprio desejo, apresentando-o como desejo de um outro. É pela voz do outro que ele pode falar.

A dúvida constante, tão presente no discurso dos obsessivos também aparece como uma forma de não se haver com seu desejo, isolando-o no mundo. “Porque, tal como Freud estabeleceu, o obsessivo goza e sofre dos pensamentos”.

A inflação imaginária e a presença da morte são dois aspectos presentes na dinâmica do obsessivo. Ele oscila entre fazer-se de morto e ser tomado da mais viva cólera. Fazer-se de morto apaga seu desejo para não despertar a cólera de seu mestre.

O Homem dos Ratos procura Freud com queixa de obsessões e compulsões. Medo de que alguma coisa ruim acontecesse a duas pessoas que gostava muito: seu pai e uma dama. O paciente passa a pensar na morte de seu pai, na medida em que este se coloca como um rival que o impede de realizar seu objetivo amoroso (a morte do pai abre as portas para o desejo). A morte do pai também responde à necessidade estrutural de inscrever este pai no simbólico.

Aparece aí um pai do 2o tempo do Édipo, um pai que goza e o impede de gozar, há um fracasso do pai em transmitir uma imagem idealizante, um ideal de eu.
O obsessivo fica preso num jogo imaginário, de espelho, onde um mestre se instala no lugar do pai, como uma figura cruel. Nesse sentido, as relações do obsessivo são imaginárias, marcadas por uma rivalidade: eu ou o outro.

“O obsessivo necessita da possibilidade da morte, sobretudo da morte de uma pessoa significativa ou até mesmo amada, para resolver seus conflitos. Trata-se, na verdade, de uma trapaça: o obsessivo, em seu lugar, oferece o outro à Morte, fazendo-se de morto e se multiplicando nos outros que sacrifica em pensamento, repetindo dessa forma o truque de Páris”.

Notamos a presença da dúvida no caso do Homem dos Ratos com relação à dívida, onde ele se questiona se deve ou não deve pagar. O conflito é resolvido por uma estrutura lógica delirante, onde apesar de dever à dama, passa a achar que deve ao capitão. A dívida aí é o representante do impossível da realização do desejo. É importante ressaltar que não se trata de um pagamento real, mas sim, de se repetir um elemento que não pode se inscrever (dívida).

Lacan pontua que a história atual do Homem dos Ratos fala de algo que é anterior ao nascimento do sujeito. É o que o autor chama de Mito Individual do Neurótico, uma lenda que visa dar conta daquilo que está na origem de seu nascimento, de sua pré-história: o Outro e suas falhas.

Nesse sentido, percebemos que a história individual retoma a familiar, na medida em que em função da não resolução na geração anterior, os significantes do pai devedor, do amigo salvador e do casamento por conveniência se repetem.

Bibliografia:
Freud, S. Obras psicológicas completas da ed Standard Brasileira. Atos Obsessivos e práticas religiosas. Vol. IX. RJ: Imago Editora, 1980.
Lacan, J. O seminário, livro 5: as formações do inconsciente. RJ: Jorge Zahar Editor, 1999
Ribeiro, M.A.C. Um certo tipo de mulher. Mulheres obsessivas e seus rituais. RJ: Rios Ambiciosos, 2001.


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